Durante alguns dias, a moda brasileira pareceu girar em torno de uma pergunta só: quando uma referência vira cópia? A discussão ganhou força nas redes, entre criadores de conteúdo, jornalistas e comunicadores independentes. O assunto saiu da acusação pontual e abriu uma conversa maior sobre autoria, repertório e desejo.
Para encerrar a conversa, levamos a questão a Gilles Lipovetsky, autor de “O Império do Efêmero”, referência em moda, luxo e consumo. Em passagem pelo Brasil para o São Paulo Innovation Week, ele foi direto: a cópia não é uma conversa fiada criada na internet. Para Lipovetsky, ela faz parte da própria lógica da moda.
“A moda passa pela cópia”, disse ele, não absolvendo as supostas cópias, mas levando o debate para outra camada. Desde o século XIX, a cópia dos produtos de prestígio acompanha a moda. Antes, o alvo era a alta-costura parisiense. Hoje, o fenômeno se espalhou para roupas, bolsas, smartphones e símbolos de status.
No Brasil, a discussão ganha outra camada. A moda por aqui sempre funcionou em uma dinâmica diferente da moda do hemisfério norte. Quando a moda brasileira começava a se formar, Zuzu Angel, com uma criação autoral ligada a referências brasileiras, coexistia com Clodovil, costureiro que vendia bem e era frequentemente acusado de copiar grifes internacionais, como Saint Laurent. Os dois revelavam um mercado dividido entre autoria, desejo, acesso e repertório. Acima de tudo, que vendia.
Por isso, o debate sobre cópia e inspiração nunca é simples. A moda se organiza a partir de referências, arquivos, repetições e códigos reconhecíveis. O papo vira conversa de gente grande quando sai da comparação entre imagens e entra no processo: o que foi transformado, o que foi apenas repetido e o que existe de autoria nesse caminho?
Lipovetsky parece menos interessado em transformar o tema em tribunal moral e interessado em apontar um caminho: “A melhor defesa é a criação, é a invenção contínua de novos modelos que estejam em relação com o gosto dos consumidores.”
Depois de uma semana discutindo quem copiou quem, vale repensar a pergunta: o que esse debate revela sobre o que ainda esperamos da autoria no Brasil? (Por
@fvsari )