Um Templo para Mama, 2026.
Em Um Templo para Mama, materializo um espaço de abrigo para a força e o poder das memórias femininas. Este trabalho nasce da compreensão de que as mulheres são as figuras que gestam, criam e sustentam as estruturas da vida e da espiritualidade.
A forma da escultura, inspirada nas pedras e conchas espiraladas que encontrei no Senegal, carrega a lógica do tempo acumulado, onde cada volta da espiral contém a memória do todo.
Moldada em argila e não transformada em cerâmica, a peça preserva a terra como matéria viva, mantendo o fluxo energético entre a terra e os cristais.
Os cristais guardam memórias ancestrais, e o ouro traça os caminhos por onde essas mensagens circulam; afinal, toda a matéria é sagrada e, de algum modo, se conecta com o todo.
Foi muito forte e bonito o processo criativo dessa escultura, porque inicialmente eu idealizei algo, comecei a modelar, mas, após ser atravessada pelo território e por suas forças, a peça se apresentou de outra forma e tudo mudou: não sou eu quem dito. E, fora do meu território, da minha terra, foram as energias de Ngor e Toubab Dialaw que ditaram o que deveria ser feito; foram as matérias desses lugares, as pedras vulcânicas de Toubab, as conchas de Ngor, os espirais pelo caminho, as mulheres trabalhando e sustentando sua família com seus ofícios levados sobre a cabeça, assim como ainda acontece no Brasil e assim como também vi em Luanda. Foram as mulheres e suas energias que, junto comigo, moldaram esse trabalho.
Foi também essa mesma energia que me deu resiliência e calma para lidar com as falhas, com as intempéries de se produzir em um local seco e, ao mesmo tempo, úmido, de ver a peça rachar e entender dela o que poderia fazer para que ela permanecesse ali comigo, inteira, e assim pudesse ir para o mundo; e assim foi: juntas, superamos os desafios. Foram muitos aprendizados técnicos, pessoais e espirituais durante essa residência. Eu, que não sonhava há muito tempo, voltei a sonhar todos os dias e a lembrar de cada detalhe. Tudo está conectado nessa espiral, que é o nascer, viver, morrer e renascer todos os dias.
Um Templo para Mama é a primeira de uma série e um lembrete para nós.
27 days ago