Ainda bem que gosto não se discute — mas as certezas, sim.
No último dia da 36a Bienal de São Paulo saio com algumas impressões e vontade de escrever sobre curadoria, pois, é uma exposição que propõe um exercício curatorial dinâmico, fora dos padrões habituais. Uma Bienal que tensionou normas, deslocou hierarquias e colocou em xeque o que, por muito tempo, foi tratado como medida de valor, equilíbrio ou sofisticação no campo da arte.
A pergunta que me acompanha é simples e incômoda: quem tem medo da cor?
Porque a ausência de cor nunca é apenas uma escolha estética. O desejo pelo clean, pelo silencioso, pelo contido, revela uma vontade de controle — de apagar conflitos, presenças e excessos que insistem em existir. O “conforto visual” gosta da neutralidade que tem nome, corpo e história. Aqui, a cor aparece como afirmação, como ruído necessário, como decisão política sem precisar se anunciar como tal.
Pra mim, trata-se de uma Bienal pulsante, vibrante, imersiva — e, sobretudo, corajosa. Que não pede permissão para existir nem para ocupar espaço.
Para quem trabalha com arte, ser afetada é raro. O contato cotidiano com exposições, discursos e dispositivos tende a produzir uma relação mais analítica do que sensível. Talvez por isso esta Bienal se destaque: ela não se organiza a partir da distância, mas da fricção, exigindo envolvimento e atenção prolongada.
Então, que venham logo as itinerâncias! Porque esse Brazilzão precisa ver e atravessar modelos que saem da caixinha, que rompem padrões, que oferecem outras formas de imaginar mundo, arte e instituição. Essa Bienal não cabe só em São Paulo.
Saio como visitante, menos interessada em consensos e perfeições, e mais atenta às tensões que o bom exercício da prática curatorial torna visíveis. E isso, no contexto atual, é um gesto muito relevante. Afinal, vamos combinar que anda faltando umas pitadas de ousadia em nossa profissão.
Valeu,
@bonaventurendikung @thiago.paulasouza @pitol.andre @tiagogui_s @giseledepaula_arquiteta @carol.angelo , Keyna, Alya, Anna Roberta e geral envolvido que não dá pra marcar.