Aonde vou levo em mim Guadalupe e o Complexo do Muquiço. Chegar em Paris no dia do trabalhador pra alguns dias de férias foi muito significativo, pois precisei trabalhar muito (muito mesmo) pra conseguir me dar esse presente. Também é significativo porque uma viagem como essa é um sonho para muitos da minha família, mas apenas eu, até então, pude concretiza-lo. Eu saí do Brasil pela primeira vez aos 31 anos, no final do ano passado, e só pude fazer isso graças ao financiamento que conquistei para realizar uma parte da minha pesquisa de doutorado em Lisboa, onde estou morando atualmente em função disso. De todas as bolhas que venho furando há alguns anos, desde que me tornei o primeiro da família a ter acesso à universidade pública (viva o sistema de cotas!), essa foi a mais radical. Aqui pude resignificar o sentimento de "estar longe", que eu sempre conheci bem, pois a história da minha família é marcada por sua expulsão do Morro de Santo Antônio (no centro do Rio) nos anos 50, quando ele foi demolido, e sua migração para Padre Miguel e em seguida Deodoro/Guadalupe. Estar longe do centro, da universidade, das praias, das principais instituições culturais, sempre foi uma realidade. Mas aqui estou aprendendo o que é viver longe de casa e daquilo que é familiar. E a feliz certeza de que, aonde quer que eu esteja, sempre vai viver em mim aquele moleque suburbano, favelado, que cruzava todo o bloco 19 e adjacências correndo atrás de doces de São Cosme e Damião.
"EU PRECISO DESSAS PALAVRAS
ESCRITA"
Sim! Palavras são uma necessidade. Dizer o mundo é inventá-lo. Nomear o mundo é pertencê-lo.
Listar as coisas em volta, as coisas de dentro; bordar universos. A linguagem é um segundo nascimento.
O artista Arthur Bispo do Rosário fará companhia a Lima Barreto no novo projeto da Caju, que tem a parceria da V Arte e a curadoria de @jocelinopessoa@paulapoc e @daniname . As ilustrações são de @linlimaart , a produção é de @euzebbio e a identidade visual é assinada por @thiago.smf
O que Lima e Bispo têm em comum? Quem será o último vértice de um triângulo de homenagens?
Onde estaremos todos, de 27 a 30 de maio, na Zona Norte carioca?
Vem, Bispo!
E ei, você aí, que está lendo essas palavras: a gente te conta mais já, já.
Amsterdam em dezembro de 2023 e maio de 2024. E um pouquinho da exposição maravilhosa do Frans Hals no Rijksmuseum.
Falo sem nenhuma dúvida que Frans Hals é meu retratista favorito em toda história da arte. Sempre me fascinou o modo como ele pinta retratos como se fossem flagrantes. Gente captada no meio de um gesto, de um balanço, de um pensamento que quase escapa. Se a gente olha para a tradição anterior (Mona Lisa, por exemplo), o retrato é construção, pose, cerimônia. Com Hals, parece que a pintura respira.
Tem algo ali que soa estranhamente moderno. A pincelada solta, quase descuidada à primeira vista, me lembra mais certas soluções que só vão aparecer com os românticos e, depois, com os impressionistas (dois séculos depois). Mas nada é improviso, porque por trás desse “instante capturado” existe uma arquitetura muito precisa.
Hoje é o dia desse rapaz do interior apaixonado pelo mar, escorpiano intenso (uma das muitas coisas que temos em comum), companheiro nas rodas de sambas e na vida, que não deixa existir dia ruim quando está do meu lado. Te amo, Rapha. Feliz aniversário!
@raphcastro