calor e arrepio -
@amandanvnes
“‘Calor e arrepio’ me tocou como uma lembrança. Quando escutei a faixa pela primeira vez, fui envolvida pela batida e levada a um lugar íntimo, reconhecível e coletivo: a paixão, esse instante em que o tempo voa e a gente nem vê. Criar essa arte foi também permitir algo que há tempos não acontecia na minha pesquisa e prática do dia-a-dia: falar de amor. Entre tantas urgências, lutas e denúncias que atravessam meu trabalho, percebi o quanto falar de amor também é fundamental, porque também é falar de bem viver. Poder viver um amor é um direito, mas mais do que isso, amar e ser amada, admirada, celebrada é uma força vital, que sustenta, que reanima, que devolve ao corpo uma sensação de potência. Assim, a obra nasceu como uma memória. Pra mim, uma memória específica da minha última paixão, mas que pode ser de qualquer pessoa, a lembrança de um encontro que fez bem, que foi leve, que expandiu.
Na construção visual, pensei no estado de transe que a música sugere, esse momento em que estar com o outro desloca a realidade. O quarto deixa de ser apenas um espaço físico e se abre em paisagem, em paraíso. As paredes se dissolvem e dão lugar a elementos que evocam um cenário que, pra mim é esse paraíso: os açaízeiros, o calor do sol, a presença das vitórias-régias, o rio, Nazinha abençoando. Tudo coexistindo como extensão desse encontro. Belém do Pará faz muito calor, se me entendem. A cama se transforma em altar. Um espaço de devoção e celebração desse afeto. Porque há algo de sagrado na troca que acontece ali, no toque, no olhar, na entrega. A obra, então, busca provocar em quem vê esse mesmo deslocamento que, magistralmente fizeram Os Garotin, que ao olhar, também seja atravessado por gostosas e calorosas lembranças.”
Amanda Nunes
calor e arrepio, 2026
Acrílica sobre tela