A relação conflituosa entre eu e você, entre sua partida e minha estada, tem sido o motor que move grande parte dos meus sentidos. Não tem um dia que não pense em você, porque você está em tudo que escolhi fazer e propor a esse mundo enquanto trabalho. E isso há de ser um sintoma.
Quando não está explicitamente colocada, está nos métodos, no que sua falta me tirou ou me proporcionou, no caminho que percorri sem poder contar com você, com seu colo, sua voz, seu sorriso. E hoje, olhando suas fotos, imaginei como você seria se ainda estivesse aqui. Não me permito imaginar como seria minha vida com você, porque deu trabalho reinventar tudo, assumir o controle, as noites sozinho e as rédeas dessa vida que não parou pra te ver ir. Por isso o que eu me permito imaginar, criar, forjar... é a sua vida, é você. Quando você se foi, tudo o que sobrou pra eu me agarrar foi o que você foi para os outros. Dizem o tempo inteiro que eu me pareço contigo, que meu cabelo é igual ao teu, o formato do meu rosto, nossos olhos tristes... Tenho inventado você e a nossa relação com o passar do tempo. Quanto mais me aproximo da sua imagem, mais eu a nego, no mundo e em mim. Aceito me parecer contigo só se eu puder inventar você, recuperando a autonomia do invento-eu, que não é fácil de lidar, de construir, de aceitar. Gosto da tua imagem que me escapa, como teu colo que não esteve aqui, como tua voz que não esteve aqui, como teu sorriso que não esteve aqui. Não quero tua imagem, quero a ausência dela, quero o buraco que ela cavou em mim, os estilhaços. Feito à imagem e semelhança do vazio que você deixou.
Obrigado por ter me dado a vida, meu desacordo com Deus, por ter te levado, virou um acordo eterno contigo, de te inventar em cada pedaço do que ainda pulsa nesse mundo, um pacto de vingança e de celebração.
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À tua imagem e semelhança, 2018
Naftalina, mármore e ferro
55 x 35 x 50cm
7 days ago