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Meu judaísmo é uma caminhada coletiva – como foi esta caminhada pro Herzog (2018). Há 10 anos, participo em (re)construir uma comunidade onde posso existir – progressista, diaspórica, diversa, com espaços de convivência: uma casa (do Povo), um movimento (JJPDSP), um restaurante (Shoshana), uma sinagoga (Massoret) e tem mais (IBI, MUJ), transformando posições solitárias em espaços coletivos de dissenso. Não dá para agradar a todes, mas podemos andar, errar e acertar em boa companhia, inclusive com quem não concordamos em tudo. Esta caminhada, sem vozes heróicas isoladas, nos mantém longe do ódio e gera mudanças coletivas: demoram, mas acontecem!
O tempo político das redes, porém, é outro. Não quer conversas, mas conversões – e já! "Cessar-fogo!" "Fim dos assentamentos!" Judeus progressistas apoiam isso, claro, não é complicado mesmo. Mas o óbvio não apaga o antisemitismo, não quebra o silêncio sobre o dia 7.10, e não resolve a ambiguidade (sim, tem!) do slogan "Palestina livre do rio ao mar": uma violência (a criação de um país e a expulsão de parte da população) não se resolve com uma outra (a criação de um país e a expulsão de parte da população).
No mercado de hashtags, as posições disponíveis são polarizadas e quem não se alinha é julgado – não pelo que fala, mas pelo que não fala; não pelo que faz, mas pelo que não posta. Não ser alinhado não quer dizer que vc é alienado: não justifico violências em nome de outras; não acho que a dor autoriza nada; meu choro não é seletivo; e não trabalho com subtração: sou judeu e árabe ao mesmo tempo.
Se vc acha que tem contradições nisso, pode ser que nós perdemos em algum momento. Se acha que tá fácil se posicionar, talvez tenha perdido algo. E se não tolera o dissenso, corremos o risco de nos perder. No meio de tantas (des)informações, ninguém aqui é estrategista, nem apita, mas pode fazer algo de onde está: tensionar, defender direitos humanos (não é ingênuo, não), ler, conversar, cuidar, repensar (estado-nação, soberania, solidariedade), apoiar movimentos de paz lá, lembrar das lutas daqui, organizar a raiva e se expor – é o que tenho feito, pois é mostrando fragilidades que conversamos, caminhamos, mudamos.
2 years ago