António anoiteceu para sempre.
Nas vezes em que a tristeza é mais demorada encontramo-nos nas páginas dos livros que lemos. Num desses dias, enquanto me perdia na solidão bruta das noites, apaixonei-me por António.
(Li-o,
leio-o como ele gostava de ser lido. Cada livro uma doença, cada frase mais longe da cura. Numa das suas crónicas escreveu que a sua esperança era a de que o leitor se visse, como num espelho, em cada página.)
Nas vezes em que a tristeza é mais demorada pensamos no castelo de memórias que aos poucos se desmorona e se reconstrói sozinho na falha eterna.
E outra vez o subúrbio e o café e o fumo de cigarros. Outra vez a província e a serra que a condena em muralha. Outra vez a pobreza e o seu silêncio. Outra vez a verdade. Todas elas inteiras na cabeça e no corpo.
Nas vezes em que a tristeza é mais demorada não há escapatória. Somos obrigados a assistir a nós próprios, para nos entristecermos com a nossa tristeza. E de forma incessante procuramos abrigo em todas as sombras, em todos os cheiros. Mas abrigos invisíveis são tão inúteis como crer que a doença só calha aos outros.
Nas vezes em que a tristeza é mais demorada, em raros casos, existe sorte. Talvez vos calhe um livro que se imprima conforme a vossa cara na almofada de manhã e, num caso de fortuna extrema, um gato. Um gato que, quando ao sol, fica dourado.
O domingo é o primordial dia das banais e das inúteis, daquelas que são filhas do furo que deixa entrar a chuva pelo telhado e que tapam a cada inverno. Hoje, consciente da insignificância pessoal, arrisco-me na loucura dos desejos - que todos os dias sejam domingo!
Penso:
Num sítio que não me recordo e habito igualmente. Num crescente oceano da
exploração e eu perdido, afogado. Encontro-me e perco-me na repetição. O relógio que me
guia, que não me guia, antes construo. Tudo aqui pulsa em ritmos diferentes, todos em
aberração temporal. Quantos tempos sem relação uns com os outros aqui sobrevivem?
abyss do @afonsobli
Já comi o pólen das flores
como quem acredita na eternidade da chama,
mas até o fogo apodrece primeiro
que os caroços das pêras.
Sou infeliz.
Transposto as memórias de dois corpos
no meu corpo meio.
Sei-me incompleto,
mas acordado.
Conheço as tragédias das notícias
do almoço e do jantar
mesmo antes de acontecerem.
Transporto-as no meu corpo meio.
Sobrevivi até ao abismo
sob uma luz meia como eu -
resta-me como farol inverso
aquela placa da saída de emergência
que estranhamente habita neste lugar.
Sigo em seu oposto,
quero o abismo.
Chego.
Espero quieto.
Não há vento,
mas o farrapo de corpo meio balança-me,
talvez sejam os meus ossos a chorar.
Uma última semente de pêra brota
nesta salina em forma de gente.
Salto para o lugar invisível
incapaz de mais,
neste momento fixo
com os olhos vendados
o ponto de luz transparente e encontro-te.
Sabes há quanto tempo estás no abismo?
13 SET 21H @casadocomum 5€
cartaz: @afowso
[EN]
I ate the pollen of flowers
like someone still clinging to the idea
that flames last forever.
But even fire rots
before the seeds at the center of pears.
I am unhappy.
I carry the memory of two bodies
inside this half-body of mine.
Incomplete, but not asleep.
I know what tragedies the lunch and dinner news will tell
long before they happen.
I haul them with me in this half-body.
I made it as far as the edge of the abyss,
under a half-light,
a broken lantern to match me.
What remains is only the emergency exit sign,
glowing in reverse,
like a beacon that doesn’t save but tempts.
I turn my back to it.
I want the abyss.
I arrive.
I wait. Quiet.
There is no wind,
but my rag of a half-body still sways.
Maybe it’s just my bones crying.
A final pear seed
pushes up through this salt-flat shaped like a person.
I leap.
Into the invisible place.
No more strength left.
Eyes covered,
I lock myself in the thin clear light and there you are.
Can you tell how long you’ve been in the abyss?
[PT]
Já comi o pólen das flores
como quem acredita na eternidade da chama,
mas até o fogo apodrece primeiro
que os caroços das pêras.
Sou infeliz.
Transposto as memórias de dois corpos
no meu corpo meio.
Sei-me incompleto,
mas acordado.
Conheço as tragédias das notícias
do almoço e do jantar
mesmo antes de acontecerem.
Transporto-as no meu corpo meio.
Sobrevivi até ao abismo
sob uma luz meia como eu -
resta-me como farol inverso
aquela placa da saída de emergência
que estranhamente habita neste lugar.
Sigo em seu oposto,
quero o abismo.
Chego.
Espero quieto.
Não há vento,
mas o farrapo de corpo meio balança-me,
talvez sejam os meus ossos a chorar.
Uma última semente de pêra brota
nesta salina em forma de gente.
Salto para o lugar invisível
incapaz de mais,
neste momento fixo
com os olhos vendados
o ponto de luz transparente e encontro-te.
Sabes há quanto tempo estás no abismo?
cabra-cega, de onde vens?
Performance “entre o ver e o ser visto” do @vascolm , fotografias da @carolviewz .
A música esteve a cargo do @afonsobli com quem estarei em setembro na Casa do Comum para descobrir novos caminhos.
“OBSERVATÓRIO” 🕳️
um projeto de vasco marrocano
na Capela da FBAUL
24 de junho, pelas 17h:
performance “ENTRE O VER E O SER VISTO”, com a participação de Benetto;
25 e 26 de junho, das 13h às 19h:
exposição em exibição;
sinopse:
“a observação é uma dança.
uma dança entre pares, onde não há regras, pois o ato de ver não tem, nem pode ter, regras.
andamos todos nesta dança sem fim.
assumimos o papel mais conveniente, mas ninguém está livre da vigia.
somos como os pássaros. o voo que tomamos num ato de liberdade é impedido pela gaiola.
um olhar que deseja - é fetiche.
um corpo que dança - é vício.
uma consciência que se ganha - é existência.
somos 2 em 1. o que vê e o que é visto.”
este observatório é uma experiência,
quem nele entra tem de se permitir a vivê-la.
ver e ser visto. 👁️
um agradecimento especial ao tomás (@tzf.x ) pelo cartaz belíssimo! <3