Há uns anos, o brilhante Matheus Nachtergaele apresentou em
São Paulo o monólogo "Conscerto do Desejo" (com s e c, para ser duas palavras numa só), no qual dizia os poemas de sua mãe e usava os vestidos que ela deixara. Mais do que evocar a mãe, Matheus procurava disponibilizar o seu corpo para que ela comparecesse. Corpo e voz ao serviço da memória para tentar presentificar quem ela era. O luto pela mãe jamais termina, e nenhum artista segue incólume, quero dizer, todos os artistas ferem a sua arte pelo luto. É um império. Não se escapa.
Acabo de ler o delicadíssimo "Ivu'kar", de João Grilo (Sr Teste Edições, 2026), e outra vez me fica a impressão do protesto do artista contra a ausência, contra o vazio, porque é inaceitável que onde se ame tanto não esteja ninguém. Por isso, os mortos estão no vão do espaço e no inaudível do silêncio. Têm de estar. O amor impõe.
Grilo pensa bem e sem pretensões. É sobretudo alguém que avança honesto e ostenta sem pompa a sua inteligência sincera e ferida. O que nos conta é o inevitável, mas o seu ofício é um que conheço bem, o de obrigar que a morte não atribua aos nossos mortos significados perversos e tristes. Os nossos mortos têm de significar felicidades complexas, mas felicidades, porque não admitiremos que componham nossa miséria, nossa ruína. O amor não aceita, e o amor impõe.
São inúmeras as passagens cristalinas do pensamento, ou da emoção, do autor, mas aprecio particularmente que diga: "reconheço-te nos ecossistemas, nas árvores, no céu, no atlas invisível do cheiro das flores, na linguagem e nos pássaros". Para, um nada depois, dizer: "Se há coisa que me espanta é a tua totalidade".
Os nossos mortos são totais. Estão como milagres em toda a parte. O próprio livro, como o corpo de Matheus Nachtergaele ao serviço da memória, é o milagre de uma presença que jamais partirá por inteiro. A morte pousa em toda a parte onde há vida.
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