A jornada cinematográfica de Antoine Fuqua em “Michael” não se inicia por um convite à intimidade, mas pelo estrondo dos bastidores da era “Bad”, o exato momento em que o rosto de Michael Jackson deixou de pertencer à biologia para se tornar a máscara definitiva da cultura global.
Nesse tabuleiro de xadrez familiar, se a precisão técnica e espiritual de Jaafar Jackson sustenta a estátua do ícone na fase adulta com uma mimetização que beira o sobrenatural, é no corpo infantil de Juliano Valdi que o filme encontra seu coração pulsante e sua vulnerabilidade mais crua.
O Michael Jackson que emerge desse ensaio visual é uma tradução melancólica do Pinóquio, um menino de madeira esculpido pela disciplina rígida de um mestre entalhador que passa a vida performando a perfeição na esperança de um dia ser reconhecido como um humano de verdade.
Essa busca pela carne e pelo afeto, em meio à artificialidade da fama, colide com a construção mental de sua própria Terra do Nunca, um refúgio que começou a ser edificado ainda sob o peso dos traumas da infância com os Jackson 5, pois Michael é o Peter Pan que não apenas se recusa a crescer, mas que é impedido de fazê-lo porque sua gênese foi interrompida para dar lugar ao ícone.
O filme de Antoine Fuqua é grandioso, transitando entre o produto embalado para as massas e a alma que insiste em escapar pelos poros das canções, talvez até contra a intenção inicial do diretor, que claramente foi obrigado a abaixar a cabeça para os detentores dos direitos do artista.
Texto por Hyader Epaminondas (
@eusouhyader ). Leia mais em midianinja.org/cineninja ou pelo link na bio.