Adorei ver tantos posts na internet identificando a falta de definição que existe nos dias entre o Natal e o Ano Novo. Nunca passei essas duas datas num mesmo lugar, então sempre é um período que pra mim inclui traslados. Neste ano, passei o Natal na Alsácia e o ano novo em Bern, na parte alemã da Suíça.
Gostei de uma explicação que eu li da razão da Alsácia ter sido uma area de muitos conflitos entre a Alemanha e a França: A França pós-revolução considerava seus limites definidos pela geografia (rio Reno, Alpes, etc..), e a Alemanha pós-napoleão desejava unificar os povos que falassem alemão. E a Alsácia-Lorraine acabava sendo a região no centro desse diagrama de Venn.
No Brasil, nossas fronteiras são definidas pelo mar e pela língua, sempre achei isso muito claro. Isso dificulta muito pra mim entender como existem países como a Suíça e a Áustria, mas tambem nao é como se eu tivesse viajado muito pelas bordas internas brasileiras. Quando fui ao México, senti muita vergonha de nao falar espanhol, eles me pareceram menos colonizados pela língua inglesa do que o Brasil.
Do Brasil me mudei pra Inglaterra, e mesmo depois de 15 anos, meu inglês nao é 'perfeito', mas é inglês britânico, por que agora eu sou britânica, então a minha língua, seja da forma errada que eu falo, faz parte do que é tambem o inglês.
[continuação do último post]
Na verdade, antes disso vieram as aulas de gramática, que nao faziam sentido nenhum pra mim. Outra matéria que eu ia péssima na escola, e se repetiu com toda lingua que tentei aprender. Acho que só adulta finalmente me colou (pq as vezes nos ensinam várias vezes uma coisa, mas você demora a aprender) a explicação de que essas regras todas foram inventadas pra dar sentido ao que jah existia. Primeiro as palavras e depois as regras, mais tipo que nem antropologia, ou mesmo física, do pouco que consigo compreender.
Aos 37, tive o diagnóstico de:
"considerando-se o esperado para a faixa etária e nível acadêmico. Sua performance foi mais eficiente ao realizar a busca pela via semântica, situando-se na mediana ( Categorias- Animais, Perc. 42). Há a se
notar, que não houve quebra no fluxo de palavras (que se manteve constante), mas a discrepância dos resultados fonológicos x semânticos foi muito significativa (busca por letras x por categorias, como animais), introduzindo uma desarmonia na velocidade de acesso ao seu estoque de vocábulos, que pode interferir ao ter que encontrar as palavras precisas durante o discurso.
[...]
Em resumo:
Os dados deste exame mostraram que J. é pessoa com excelente capacidade de abstração, que é a condição central da inteligência. Todavia, ela apresenta dificuldades na área da linguagem que se
iniciam na atenção auditivo-verbal e na memória operacional, passando pela velocidade com a qual ela encontra palavras no léxico, e na desenvoltura e precisão do discurso ao expor suas ideias. Estes fenômenos interferem na memorização e aprendizagem de novas informações, pelo fato que ela precisa despender um esforço significativo para “guardar” tais dados."
Não consigo nem entender bem o que tá escrito aí, só concluo que palavras não são bem meu melhor material pra me explicar, ou pra me ensinar, mas é como esse mundo se organiza.
Hoje em dia me frusto muito com a evolucao da tecnologia para 'voice activated'.
Quero falar com maquinas na língua delas, que me dediquei tanto a aprender o pouco que consegui entender. Nunca fui muito de confiar em traduções, desde as impressoras.
Eu escrevia muito, muito mesmo, até ter aulas de 'dissertação' no ginásio.
Por que aí entrou uma fórmula e um jeito certo de escrever. E desde então me pergunto se estou escrevendo certo. Antes eu nao tinha esse questionamento, só escrevia tal qual eu lia, e lia muito, e acho que até sentia bastante [contentamento] da semelhança do que acabava na página e do que estava na minha cabeça, nao lembro de sentir a frustração que sentia de outras coisas que eu tentava 'manifestar'/ manufaturar com as minhas mãos, como era com desenhos e esculturas de barro, que eram sempre uma enorme decepção.
Em casa sempre tivemos computadores, como ferramentas de trabalho dos meus pais, inclusive um usava PC e outra Apple, e então eu já aprendia sobre as diferentes interfaces para uma mesma coisa. Enfim, eu gostava muito quando me deixavam desenhar no paint, acho que mais no laptop enorme do meu pai. Um dia ele me ofereceu imprimir meu desenho, naqueles papéis com furinhos laterais nos quais minha mãe sempre estava imprimindo e anotando os livros que edita. Eu fiquei animadíssima, e aih decepcionadíssima, de como meu desenho saiu achatado, nada a ver com o que eu tinha desenhado na tela (aih começava minha intensa decepção com impressoras, que só se intensificou conforme fui estudar design gráfico na universidade). Mas achei que nao podia demonstrar frustração ao meu pai, que tinha generosamente oferecido de usar essas ferramentas complexas e caras de trabalho para um simples desenho meu.
Eu escrevia bastante, e acho que jah numa coisa meio 'flow of consciente' nao por que eu tivesse lido livros assim, mas por que assistia muitos filmes, com vozes em off (inclusive o terrível corte do Blade Runner, que por anos foi tudo que tínhamos). Eu achava que isso era escrita, aquele exato pensamento que estava acontecendo e sendo expresso e transmitido simultaneamente do personagem em tela, não tinha dúvida de que havia quase nada que se perdia nessa transmissão.
Mas sim, aí vieram as aulas de dissertação.