1. Ateliê, Fortaleza 2018. (alguma tentativa de autorretrato) | 2. Retrato Lia de Paula (detalhe)
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' estás esperando na festa e a festa - não sabes - é esta que invisível te espera.'
Um devir utópico.
Aqui, desvela-se o alarme indócil de quem vive o mormaço, aflorado e insubordinado, com os sentidos inquietos; daqueles que, em delírio e urgências incontida, sobrevivem e persistem no limiar de iminência sobre a chuva e a morte. Sob a mediação inexorável do ciclo infindo entre vida e o que a opõe.
Na experiência sensorial de quem se constitui nos Trópicos, ergue-se um levante contínuo de êxtase, atravessado pelo calor irisado de uma alegria latina que faz da própria matéria do quente-úmido o seu meio de criação – a Arte não pela condição, mas através dela - que cintila serpenteando o baile do sublime popular, entrelaçada na complexa mistura de identidade cultural, geográfica e social, confrontando-se à realidade que nos espreita além das fronteiras. E é desse atrito que o exuberante irrompe, inscritos em ritos, mitos e cólera, no mais profundo e ordinário fio de resiliência.
O Eros tropical, enraizado no corpo e no chão deste território, ergue-se como um manifesto inscrito no peito desnudo e aberto que grita o vigor corpóreo, em carne e calor, de sua natureza com comovida resistência. Há uma força não acidental em seu florescer, uma incontingência que insiste, mesmo no ambiente hostil, fazendo do atrito matéria de existência, irrompendo contrafortes e muralhas.
O indomável do cerne político de cada imagem enlaça-se num possível ditame visual da identidade étnico-cultural, que cintila em movimento contínuo anunciando a opressão colonial de um mundo cartesiano, colapsado e opaco. Recusa-se a opacidade como imposição, se contrapondo às restrições sociais e civilizacionais de domínio.
Deglutir, faminto, as rígidas paisagens frias além dos trópicos de Câncer e Capricórnio. Fome de devoração que vorazmente, ao fazê-lo, enuncia criticamente o contraclássico e sua estética racional. Convocando à reflexão da construção de um outro mundo possível, o único possível. A Natureza mater, úmida e genitora, florestal e diversa, que nos antecede e excede. Maternar o mundo para sustentar uma nova aliança.
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Regina, também Maria, neta de dona Ana e dona Raimunda, a chamavam de Carucha a avó materna. Filha de dona Marieta, nora de dona Dulce. Mãe de Rina, Rani e Rian. Avó de Elis, Ísis e Lara.
Seminário De Corpore - Corpo adentro, corpo afora na Pinacoteca do Ceará. um ateliê de pesquisa, referência, memória e experimentação, refletindo e construindo senso crítico. Meu agradecimento aos curadores, aos convidados, toda equipe da Pinacoteca do Ceará e ao público presente. Luiz de Abreu, Marisa Flórido, Arthur Omar, Adolfo Montejo, Helena Vieira, Beth Moysés, Agnaldo Farias e Enk Te Winkel. @pinacotecadoceara