Essa foi a entrevista mais visceral que fizemos @renatabuzzo___.___
“Falar de violência psíquica sem usar o corpo seria uma mentira estética. A violência é física, mesmo quando é simbólica — ela entorta postura, altera respiração, muda a maneira como uma mulher ocupa uma sala.”
Fashion Is Art foi o tema do Met Gala 2026. Moda e arte como manifestação. O evento que se intitula o Oscar da moda causou mais uau do lado de fora. Os protestos roubaram o tapete vermelho de um evento patrocinado por um homem que paga menos imposto do que o seu funcionário que não pode nem ir ao banheiro, e por outras grandes bigtechs garantindo suas cadeiras, garantindo um 360° de domínio cultural.
Enquanto nosso time discutia a relevância da pauta, ficamos questionando a necessidade de se criar mártires e heróis em qualquer coisa que envolve política e causas pertinentes da sociedade. Se moda e arte são meio de expressão, o que sobrou dessa edição do Met Gala?
Nossas heroínas que têm seus legados pautados em direitos e representatividade compareceram ao evento. O boato da socialite que pagou para ninguém mais usar a marca cuja dona é uma grande representante da arte e da moda.
E o que sobrou para a gente, meros mortais?
Diante do cheque assinado e do agradecimento público da anfitriã master — que tem um caso de amor antigo com certos bilionários — a resposta é simples: sobrou a língua afiada para criticar os looks, aplaudir ou não quem não foi, desejar sorte aos protestantes e ficar obcecado com o fato de que, depois de uma década, a rainha Bey voltou para ser glorificada — e ela nem estava tão bem vestida assim (por favor, entendam a ironia por trás da frase, rs)
Se estivesse viva hoje, Anna Piaggi não teria paciência para o minimalismo recente. Com um acervo vintage de quase mil chapéus, 265 pares de sapatos e cerca de três mil vestidos, suas combinações atravessavam décadas e não obedeciam a nenhuma lógica de época.
Seu legado passa pelas icônicas Doppie Pagine na Vogue italiana e pela construção de uma imagem inconfundível: rosto branco, cabelo azul, bochechas marcadas. Em 1978, em entrevista à WWD, resumiu seu estilo afiado: “minha filosofia de moda é humor, piadas e jogos. Eu crio minhas próprias regras. O que deve ser evitado a todo custo é o look total”
Te amamos, Agente. Te amamos, Wagner Moura. Te amamos, Kleber Mendonça Filho. Te amamos, Tânia Maria, Alice e cada um do elenco que deu vida a essa história. Como uma nação que não esquece, e que nunca vai esquecer.
Viva o cinema brasileiro 🇧🇷
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Se existe um objeto capaz de revelar como o desejo muda ao longo do tempo, provavelmente é a bolsa. Um marcador cultural que fala sobre gosto (duvidoso, às vezes, rs) e poder simbólico.
No início dos anos 2000, a bolsa de luxo era sobretudo uma fantasia aspiracional. Personas como Paris Hilton e a eterna Carrie Bradshaw (alô, Sex and the City!) transformaram o consumo das it-bags. Pouco depois, colaborações como Louis Vuitton x Takashi Murakami levaram a logomania ao auge, transformando a bolsa em um verdadeiro outdoor de marca.
O luxo também se reconfigurou a partir do hype, da cultura de rua e das comunidades. Quem lembra dos virais do “quanto custa o outfit”? Designers como o lendário Virgil Abloh foram pioneiros na lógica de transformar o ordinário em luxo, algo que Demna explorou posteriormente com ainda mais ironia.
Entre colaborações improváveis, campanhas com senhoras de 80 anos e chaveiros em formato de livros, o luxo hoje performa tempo, repertório e legado. A distinção já não se dá apenas pela ostentação de uma it-bag, mas pela maneira como ela é usada, interpretada e contextualizada.
Nesse teatro social, até os cacarecos pendurados nas bolsas ajudam a performar essas distinções: “sou tão intelectual que literalmente carrego meu livro comigo.”
Há algo de espectral na alta-costura de Robert Wun. Ele transforma o perturbador em sublime com máscaras, próteses e “espíritos” obsessores, pequenos alter egos que surgem como esculturas acopladas ao corpo. E é aí que ele vira uma chave perfeita para pensar “Fashion Art” no Met Gala 2026: silhuetas mutáveis, criaturas inquietantes e, ainda assim, impecáveis. Obras assinadas por quem entende que o terror também é arte.
Lynda Dawn, do noroeste de Londres, é uma vocalista, compositora e produtora que vem ocupando um espaço interessante na cena britânica. Sua sonoridade vem da época do coral gospel na igreja, da influência do pai, músico de jazz, e da mãe, com repertório de funk e boogie dos anos 70 e 80.
O próprio The Guardian definiu seus vocais como uma influência gospel que deslumbra como raios de luz através de um vitral, por conta da leveza em cima dos grooves e da produção arrojada. Uma das canções que entrega esse tom gospel é “Arise”. A própria Lynda já disse que a letra é baseada em duas passagens bíblicas que a ajudaram a se fortalecer como artista dessa geração: Isaías 60:1, que diz “Levanta-te, resplandece, porque já vem a tua luz, e a glória do Senhor vai nascendo sobre ti”, e o Salmo 30:5: “O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã”.
Para além da qualidade sonora, ela tem uma vibe que evoca a beleza de Solange Knowles e Sade, e isso não é uma comparação gratuita. É perceptível que a gata elabora sua imagem com precisão e autenticidade, com um quê minimalista dos anos 90. Uma elegância de verdadeira diva.
Nossa dica é: pegue seu amor, aproveite o melhor do R&B com o EP At First Light, de 2019, e se inspire no mood Lynda do dia. 💕
O maximalismo e o upcycling podem estar no auge da moda global, mas dentro das casas das famílias brasileiras eles sempre estiveram presentes nas mãos das mulheres, nas colchas de retalhos, nos fuxicos costurados em roda de conversa e na criatividade que o Brasil, com S, tem de sobra.
Nossa mineirinha do pop soube construir de forma impecável sua estética, já que o reaproveitamento de retalhos é uma prática regional que diz muito sobre suas raízes. Esse movimento também é celebrado no trabalho do designer Lucas Caslú, que transforma materiais residuais em luxo, gesto que dialoga com a potência de Efigênia Rolim.
Para fechar, moda e Carnaval operam como continuidade dos saberes populares e dos valores afetivos e geracionais que atravessam nossa cultura.
É nesse trânsito entre casa, rua e palco que a estética brasileira se mantém viva, atual e relevante.
A trajetória de Jorge Lafond se construiu a partir da dança e do humor. Antes de se tornar um fenômeno na televisão, ele já era um grande bailarino, com formação em Artes Cênicas, balé clássico e dança contemporânea africana. Também integrou o Ballet Folclórico Mercedes Baptista, companhia formada exclusivamente por artistas negros, criada em 1953 com o objetivo de ampliar as perspectivas da dança no Brasil e valorizar as matrizes afro-brasileiras.
No Carnaval, Lafond se consolidou como protagonista em grandes escolas do Rio de Janeiro e de São Paulo. Em 1990, desfilou pela Beija-Flor de Nilópolis, vice-campeã com o enredo “Todo Mundo Nasceu Nu”. Em 2002, tornou-se a primeira drag queen a ocupar o posto de Rainha de Bateria, pela Unidos de São Lucas, em São Paulo.
Sua trajetória também foi transformada em enredo. Em 1992, foi homenageado pela Unidos de Anil, com “Mas Que Nega É Essa?”. A letra, além de abordar questões de identidade de gênero dentro do contexto da época, tratava de racismo, corrupção política e da ideia de crianças livres no “paraíso” do Carnaval. Em 2004, já após sua morte, foi novamente homenageado pela Arame de Ricardo, com o enredo “Lafond, Sua Vida, Suas Glórias… Hoje o Arame Conta Sua História”.
Nos anos 1980 e 1990, Lafond e sua personagem Vera Verão romperam barreiras sociais, raciais e de gênero. Enquanto parte do público esperava uma figura limitada por estereótipos, encontrou um artista consciente de sua formação, de sua trajetória e de sua importância cultural.
Seu jargão — “Epá! Bicha, não, meu amor, que eu sou uma quase… mulher” — tornou-se, para muitas pessoas, um símbolo de afirmação e identidade, ajudando a consolidar a presença queer no centro da vida pública brasileira e a abrir debates sobre novas representatividades no Carnaval e fora dele.
Quantas vezes, na moda, o animal print, mais precisamente a estampa de oncinha, foi colocado no lugar do “cafona”, atravessado por uma leitura rasa e excludente que separa estampa de pobre e estampa de rica? Pasme: se voltarmos em alguns blogs de moda, existia até o tipo “adequado” de onça para não parecer pobre demais. Numa linha do tempo, a estampa foi usada como marcador simbólico de classe, gosto e comportamento.
Mesmo em marcas de luxo, a estampa sempre carregou um subtexto moral: no corpo da mulher, era frequentemente lida como vulgar. Se combinada com batom vermelho, então, já se podia retirar a carteirinha de cafona na saída. Um pensamento tão absurdo que hoje soa cômico, sobretudo quando essa mesma linguagem é reciclada e vendida como tendência sob nomes como mob wife, exaltando mulheres de mafiosos que fizeram da extravagância um instrumento de poder feminino.
No Brasil, ainda que influenciada por referências externas, a onça ocupa um lugar muito particular. Ao contrário do que se repete todos os anos ou, no mínimo, a cada cinco, ela não é, nem nunca foi, uma tendência efêmera para a grande maioria. A onça é força, é lenda, é feminino sagrado e indomável. Um resgate ancestral que nunca precisou da validação do modismo para existir.
Clodovil Hernandes, se estivesse vivo, certamente estaria servindo grandes discussões nas redes sociais, pelas falas duvidosas e um sincericídio incontestável. Considerado uma grande personalidade de sua época, construiu sua carreira na moda, na TV e na política.
Enquanto os anos 60 reproduziam o modelo parisiense de boutiques para a elite, Clodovil ganhou destaque vestindo a alta sociedade paulistana. Em 1960, levou a Agulha de Ouro e virou ícone da “alta-costura brasileira”.
Nos anos 80, invadiu a TV ao lado de Marta Suplicy no revolucionário TV Mulher. Considerando o período (ditadura militar), o programa tratava de tabus fortíssimos do universo feminino, falando abertamente sobre sexualidade, corpo e comportamento em uma emissora de grande alcance. Ao mesmo tempo, tornava o seu luxo fashion acessível às meras mortais por meio de cartas de telespectadoras que recebiam croquis criados ao vivo e comentários sem meias palavras.
“Eu sou um figurinista de elite, mas, nesse programa, eu ficaria muito feliz também em solucionar problemas para pessoas que não têm o que vestir.”
Foi demitido de todas as emissoras por onde passou, por conflitos com colegas e sua própria postura. Na carreira política, em 2006, concorreu a deputado federal por São Paulo e foi eleito com 493.951 votos, a terceira maior votação no estado. Apesar de ser um homem gay conservador, seu viés progressista aparecia acompanhado de um humor ácido.
Em um de seus bordões eleitorais, Clodovil soltava falas afiadas, como: “Eu queria, eu prometo... que coisa velha, que coisa antiga essa política brasileira, não é, menina? Agora me aguarde, porque vai mudar tudo! 3611 é meu número... Agora, por que escolhi o 11, meu amor? Porque o 24 já era. Agora é um atrás do outro.”
Tudo isso seguido da sua memorável risada debochada.
Clodovil foi a típica persona que se escondia por trás de uma casca grossa, mas que, se você conseguisse uma fresta de abertura, poderia, talvez, descobrir que ali também pulsava um coração enorme.
Bad Bunny venceu o Grammy 2026 com um álbum inteiramente em espanhol. Mas o que essa vitória realmente representa?
A premiação de Debí Tirar Más Fotos é resultado de um projeto sólido estético, político e afetivo, que reposiciona a cultura latina no centro do pop global. É o reconhecimento de uma narrativa que não se adapta ao mercado norte-americano, mas afirma suas próprias referências.
“Este é um álbum de música porto-riquenha. Com uma vibe completamente diferente de tudo que um artista já fez. Encontrei minhas raízes: o som que me representa.” — disse Benito à Time, em 2025.
O disco funciona como manifesto. Benito canta sobre Porto Rico, mas também sobre a vivência latino-americana: amor, luto, território, vigilância e identidade.
Na capa, duas cadeiras de plástico sob um cacho de bananas. Um símbolo simples, mas carregado de sentido para quem reconhece esse cenário. Debí Tirar Más Fotos não é só o trabalho mais pessoal de Bad Bunny. É o que mais consolidou sua visão cultural, agora reconhecida no palco mais tradicional da indústria.
Qual faixa mais te marcou nesse álbum?
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