Arrumadinhos
Olho para a imagem
e só me ocorre uma palavra.
Arrumadinhos.
Fiquei algum tempo a pensar
se havia outra.
Não havia.
Até parece que combinei com todos
e eles cumpriram,
cada um no seu lugar,
lado a lado,
sem aquele que teima em ficar torto
ou que chegou tarde
e teve de se encaixar onde pôde.
Não sei se foi combinado.
Provavelmente não.
As coisas que parecem combinadas
raramente o são.
Simplesmente acontecem
e nós chegamos no momento certo
sem saber que era o momento certo.
Em dia de descanso
ninguém saiu da linha.
Pensei nisso durante algum tempo.
Há uma verdade milenar nisso
que às vezes esquecemos
e que convém recordar:
cada coisa no seu lugar
é uma forma de paz
que não precisa de explicação.
Fundeado
Desta foi de vez.
Cheguei a Alvor.
Fundeei.
A maré tinha outros planos
e vazou sem avisar,
como fazem as marés
que não pedem licença
nem guardam rancor.
Fiquei a seco.
Atracado na areia,
sem ir a lado nenhum,
sem poder ir a lado nenhum.
Mas não faz mal.
Há uma certa liberdade
em ficar parado
sem ser por escolha.
Uma rendição
que não pesa.
Fiquei a apreciar a paisagem.
Os barcos à volta,
cada um no seu lugar,
o rio que seguia o seu caminho
indiferente ao meu.
O céu cor-de-rosa
não perguntou
se eu estava onde queria.
Aconteceu na mesma.
Às vezes é preciso
ficar a seco
para ver o que não se vê
quando se navega a toda a velocidade.
Sete imagens, sete histórias — a célula de Alvor, o Frito Velho, a chegada a Ferragudo, as geometrias, o ser divino nos telhados, o fidalgo castelhano, e a partida com os Waterboys no rádio.
Foi uma semana extraordinária.
Subi.
Deixei Ferragudo por agora.
E vi-o pela última vez
a brilhar,
dourado e quietinho,
como só brilham as coisas
que gostamos muito
quando nos afastamos delas.
A pessoa na areia
não sabia que estava a ser vista.
Caminhava devagar,
com a paciência de quem
não tem pressa de chegar
nem de partir.
Os barcos esperavam.
O rio segurava a luz
como se não a quisesse largar.
Fui para as nuvens.
Há partidas que não têm drama,
só esta claridade suave
que fica na retina
muito depois de o lugar
ter desaparecido lá em baixo.
Foi para o carro
Liguei o velho rádio avariado
Lá funcionou
Alguém cantava
I wish I was a fisherman.
O Homem do Castelo
Tenho um livro que não devia existir.
Era uma edição secreta,
exclusiva,
cem exemplares apenas.
O meu era o 64.
Foi-me dado com uma condição,
nunca revelar o enredo.
Posso falar da distopia.
O resto fica guardado.
Disseram que plagiava Philip K. Dick,
O Homem do Castelo Alto.
Talvez sim.
Talvez não.
Essas coisas dependem
de quem julga
e de quem tem poder para calar.
O que posso dizer sobre o enredo …
é que Portugal perdera a guerra
e jamais se libertara do jugo de Castela.
E que o castelo era habitado
por um misterioso fidalgo castelhano
que todos os dias,
à mesma hora,
se aprumava da varanda
e espreitava o mar.
Não sei o que procurava.
Prometi não contar.
Mas olho para esta imagem
e vejo-o lá,
a figura pequena na muralha,
de frente para o oceano,
como se esperasse
por algo que o mar
prometeu trazer
e ainda não trouxe.
Todos os dias.
À mesma hora.
O mesmo mar.
Só para quem acredita
Nos telhados da igreja
vive um ser divino.
Não sei desde quando.
Essas coisas nunca se sabem.
Os seres divinos não têm data de chegada.
Aparecem e ficam,
como se sempre tivessem estado
e nós é que não tínhamos reparado.
Não sei se é homem ou mulher.
Pode até não ter género.
Fiquei algum tempo a pensar nisso
e depois percebi
que não era importante.
O que é importante
é que não falha um dia.
Marinheiros,
pescadores,
turistas,
navegadores ocasionais,
quem pelo rio passa
sem saber que está a ser visto,
leva a sua benção.
Silenciosa.
Sem cerimónia.
Sem pedir nada em troca.
Tem por companhia gaivotas
e gatos aventureiros
com a mania das alturas.
Não me pareceu solitário.
Pareceu-me alguém
que escolheu bem
a sua solidão.
Eu acredito no ser ao ritmo dos dias.
Mas até para estes crentes de conveniência,
ele não falha.
Quando passam,
a benção cai na mesma.
Geometrias
Repara no casario.
Do alto
deixa de ser um conjunto de casas
e torna-se geometria,
um corpo distinto
que cresceu à beira rio
sem régua,
sem plano,
sem que ninguém soubesse
o que estava a desenhar.
Os telhados encaixam.
As ruas curvam-se
com a naturalidade
de quem nunca ouviu falar
de ângulos rectos.
As partes fazem um todo.
Um puzzle
que ninguém compôs
e que está completo na mesma.
Há uma ordem aqui.
Não sei qual é.
Talvez não seja importante saber.
Talvez baste olhar
e reconhecer
que as coisas que crescem devagar,
sem pressa de ser perfeitas,
acabam por ter
uma geometria própria
que a razão não alcança
mas os olhos percebem.
Vila Presépio
Cheguei como nunca tinha chegado.
A margem esquerda do Arade.
A margem dos poetas, dizem.
Não sei se os poetas escolhem as margens
ou se são as margens
que escolhem os poetas.
Vila Presépio.
Assim a descrevem.
Vi-a primeiro pelo ar,
toda ao mesmo tempo,
as casas brancas, os barcos, o castelo,
a praia que separa a “aldeia” do mar
com uma calma que me pareceu
ensaiada durante séculos.
Mas percebi que não a estava a ver.
Estava apenas a olhar.
São coisas diferentes.
Desci.
Entrei pelas ruas sem plano,
deixei que as escadinhas
decidissem a direcção,
perdi-me da forma certa,
a forma em que não se tem pressa
de se encontrar.
Há lugares que só se compreendem assim,
por dentro,
no labirinto,
quando já não sabemos
de onde viemos
nem para onde vamos.
Ferragudo era um desses lugares.
Sempre foi.
Talvez ainda seja.
Frito Velho
A fábrica chamava-se Frito Velho.
Cozia sardinha a vapor.
O fumo que subia desta chaminé
cheirava a mar,
a sal,
ao peixe que vinha da barra
e se transformava aqui
em sustento de outros.
Depois acabou.
Como acabam as coisas
que dependem da sorte
do mar
e do tempo.
Ficou a chaminé.
Tijolo vermelho,
firme,
com a memória do fumo
guardada nas paredes.
E a cegonha soube.
Não viu uma ruína.
Viu um lugar alto,
estável,
com boa vista para o rio
que trouxe tantas vezes
a sardinha a esta margem.
Fez o ninho.
Ficou.
O que um dia expeliu o fumo
da cozedura do mar
agora guarda
o que vai um dia voar.
Frito Velho
acabou a dar asas.