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Pedro Poucochinho

@pouco

Sou um andarilho com uma paixão pela fotografia. 📷 iPhone & Sony α
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Arrumadinhos Olho para a imagem e só me ocorre uma palavra. Arrumadinhos. Fiquei algum tempo a pensar se havia outra. Não havia. Até parece que combinei com todos e eles cumpriram, cada um no seu lugar, lado a lado, sem aquele que teima em ficar torto ou que chegou tarde e teve de se encaixar onde pôde. Não sei se foi combinado. Provavelmente não. As coisas que parecem combinadas raramente o são. Simplesmente acontecem e nós chegamos no momento certo sem saber que era o momento certo. Em dia de descanso ninguém saiu da linha. Pensei nisso durante algum tempo. Há uma verdade milenar nisso que às vezes esquecemos e que convém recordar: cada coisa no seu lugar é uma forma de paz que não precisa de explicação.
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11 hours ago
Fundeado Desta foi de vez. Cheguei a Alvor. Fundeei. A maré tinha outros planos e vazou sem avisar, como fazem as marés que não pedem licença nem guardam rancor. Fiquei a seco. Atracado na areia, sem ir a lado nenhum, sem poder ir a lado nenhum. Mas não faz mal. Há uma certa liberdade em ficar parado sem ser por escolha. Uma rendição que não pesa. Fiquei a apreciar a paisagem. Os barcos à volta, cada um no seu lugar, o rio que seguia o seu caminho indiferente ao meu. O céu cor-de-rosa não perguntou se eu estava onde queria. Aconteceu na mesma. Às vezes é preciso ficar a seco para ver o que não se vê quando se navega a toda a velocidade.
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1 day ago
Alvor
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1 day ago
Sete imagens, sete histórias — a célula de Alvor, o Frito Velho, a chegada a Ferragudo, as geometrias, o ser divino nos telhados, o fidalgo castelhano, e a partida com os Waterboys no rádio. Foi uma semana extraordinária.​​​​​​​​​​​​​​​​
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2 days ago
Subi. Deixei Ferragudo por agora. E vi-o pela última vez a brilhar, dourado e quietinho, como só brilham as coisas que gostamos muito quando nos afastamos delas. A pessoa na areia não sabia que estava a ser vista. Caminhava devagar, com a paciência de quem não tem pressa de chegar nem de partir. Os barcos esperavam. O rio segurava a luz como se não a quisesse largar. Fui para as nuvens. Há partidas que não têm drama, só esta claridade suave que fica na retina muito depois de o lugar ter desaparecido lá em baixo. Foi para o carro Liguei o velho rádio avariado Lá funcionou Alguém cantava I wish I was a fisherman.
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2 days ago
O Homem do Castelo Tenho um livro que não devia existir. Era uma edição secreta, exclusiva, cem exemplares apenas. O meu era o 64. Foi-me dado com uma condição, nunca revelar o enredo. Posso falar da distopia. O resto fica guardado. Disseram que plagiava Philip K. Dick, O Homem do Castelo Alto. Talvez sim. Talvez não. Essas coisas dependem de quem julga e de quem tem poder para calar. O que posso dizer sobre o enredo … é que Portugal perdera a guerra e jamais se libertara do jugo de Castela. E que o castelo era habitado por um misterioso fidalgo castelhano que todos os dias, à mesma hora, se aprumava da varanda e espreitava o mar. Não sei o que procurava. Prometi não contar. Mas olho para esta imagem e vejo-o lá, a figura pequena na muralha, de frente para o oceano, como se esperasse por algo que o mar prometeu trazer e ainda não trouxe. Todos os dias. À mesma hora. O mesmo mar.
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3 days ago
Só para quem acredita Nos telhados da igreja vive um ser divino. Não sei desde quando. Essas coisas nunca se sabem. Os seres divinos não têm data de chegada. Aparecem e ficam, como se sempre tivessem estado e nós é que não tínhamos reparado. Não sei se é homem ou mulher. Pode até não ter género. Fiquei algum tempo a pensar nisso e depois percebi que não era importante. O que é importante é que não falha um dia. Marinheiros, pescadores, turistas, navegadores ocasionais, quem pelo rio passa sem saber que está a ser visto, leva a sua benção. Silenciosa. Sem cerimónia. Sem pedir nada em troca. Tem por companhia gaivotas e gatos aventureiros com a mania das alturas. Não me pareceu solitário. Pareceu-me alguém que escolheu bem a sua solidão. Eu acredito no ser ao ritmo dos dias. Mas até para estes crentes de conveniência, ele não falha. Quando passam, a benção cai na mesma.
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4 days ago
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5 days ago
#ferragudo #algarveportugal #dronephoto #ferragudoalgarve UHD on aluminium prints available now
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5 days ago
Geometrias Repara no casario. Do alto deixa de ser um conjunto de casas e torna-se geometria, um corpo distinto que cresceu à beira rio sem régua, sem plano, sem que ninguém soubesse o que estava a desenhar. Os telhados encaixam. As ruas curvam-se com a naturalidade de quem nunca ouviu falar de ângulos rectos. As partes fazem um todo. Um puzzle que ninguém compôs e que está completo na mesma. Há uma ordem aqui. Não sei qual é. Talvez não seja importante saber. Talvez baste olhar e reconhecer que as coisas que crescem devagar, sem pressa de ser perfeitas, acabam por ter uma geometria própria que a razão não alcança mas os olhos percebem.
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5 days ago
Vila Presépio Cheguei como nunca tinha chegado. A margem esquerda do Arade. A margem dos poetas, dizem. Não sei se os poetas escolhem as margens ou se são as margens que escolhem os poetas. Vila Presépio. Assim a descrevem. Vi-a primeiro pelo ar, toda ao mesmo tempo, as casas brancas, os barcos, o castelo, a praia que separa a “aldeia” do mar com uma calma que me pareceu ensaiada durante séculos. Mas percebi que não a estava a ver. Estava apenas a olhar. São coisas diferentes. Desci. Entrei pelas ruas sem plano, deixei que as escadinhas decidissem a direcção, perdi-me da forma certa, a forma em que não se tem pressa de se encontrar. Há lugares que só se compreendem assim, por dentro, no labirinto, quando já não sabemos de onde viemos nem para onde vamos. Ferragudo era um desses lugares. Sempre foi. Talvez ainda seja.
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6 days ago
Frito Velho A fábrica chamava-se Frito Velho. Cozia sardinha a vapor. O fumo que subia desta chaminé cheirava a mar, a sal, ao peixe que vinha da barra e se transformava aqui em sustento de outros. Depois acabou. Como acabam as coisas que dependem da sorte do mar e do tempo. Ficou a chaminé. Tijolo vermelho, firme, com a memória do fumo guardada nas paredes. E a cegonha soube. Não viu uma ruína. Viu um lugar alto, estável, com boa vista para o rio que trouxe tantas vezes a sardinha a esta margem. Fez o ninho. Ficou. O que um dia expeliu o fumo da cozedura do mar agora guarda o que vai um dia voar. Frito Velho acabou a dar asas.
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7 days ago