Era 2001, eu tinha 19 anos e queria dirigir cinema. Tinha lançado um curta que fiz na faculdade e o Guilherme Karan assistiu e me disse: “Quero filmar com você”. Eu, abusado, escrevi um roteiro correndo e mandei pra ele. Chamava “As Vozes da Verdade”, um negócio meio thriller psicológico meio terror que me orgulha pra idade que eu tinha. No dia seguinte ele me ligou e disse: “Quando a gente começa?”. Com a energia e falta de noção que a gente só tem aos 19, liguei pra todo mundo que eu conhecia e levantei a produção. Na época era um negócio grande. Não era fácil filmar como é hoje. A gente ainda engatinhava na retomada do cinema (Cidade de Deus é de 2002!). Esquece streaming, vídeos pra internet. Cinema era pra festivais e salas, ponto. Mas contra todas as probabilidades, aconteceu. Até hoje me pergunto como. Um elenco formado por amigos que sonhavam como eu. Bruno Gagliasso (
@brunogagliasso ), desde sempre talentoso e disponível. Ludmila Dayer (
@ludayer13 ), que já tinha brilhado em Carlota Joaquina e hipnotizava com o olhar. E meu ex-padrasto Raul Gazolla (
@rgazolla ), que a vida inteira esteve lá pra me apoiar quando eu pedi. Eu não tinha um real pra investir. O único que investiu algum dinheiro foi o próprio Karan, que pagou a liberação pra filmar uma tarde no Parque Lage e vibrou quando viu um arco-íris na hora da filmagem. “Eu que comprei esse arco-íris pra você, Pedro Neschling!”, ele berrava feliz entre os takes. A equipe tinha nomes incríveis. Pra citar só dois, Dib Lutfi, um dos maiores câmeras do Cinema Novo fazendo a direção de fotografia, e Fellipe Barbosa, que se tornou um dos grandes diretores da minha geração (“Casa Grande”, “Gabriel e a Montanha”), era meu vizinho e fez minha assistência. Foi uma experiência inesquecível. Ontem fui na casa da minha mãe com a minha filha e achei essas fotos das filmagens. Na horizontal, o formato padrão antes das redes sociais tomarem conta de tudo. Sorri encantado com as memórias do que hoje me parece mais um sonho bonito. Coisa mais linda é o caminho que a gente percorre e quem caminha junto com a gente. Saudade do Karan, que cara maneiro ele era.