La Strada / Regina Guimarães
"Entre nada e nada
abro uma estrada
declarando vã
a anterior caminhada.
Sei que de yodas rotas
preferi a msis hipnótica
e arrisquei a minha esperança
numa súbita abalada
sem recear os atalhos
nem a hora da chamada.
Dum lado bosques frondosos
do outro secos rochedos
e nuvens à contramão
-- ó coração carburando,
será que posso pedir-te
mais uma conversa a sós?
Atrás de mim um rebanho
por um só anho composto
e a total falta de pasto
fá-lo balir atrozmente.
Que sei eu de pastoreio
ou mesmo
-- há que admiti-lo --
que sei de simples passeio?
Sozinha consigo ser
o animal tresmalhado
e a futura ovelha negra
que basta para sujar
a brancura do passado...
(20/07/2025 in 'AL-MANÁK')
Casus Belli / Regina Guimarães
"Não é o futuro que me chama
sou eu que o chamo batendo o pé
quando lhe sinto os passos no corredor.
Como a criança birrenta que não fui
antes de me danar
por entre os meandros do presente
chamo o meu futuro brinquedo
estragado para que eu possa consertá-lo
Não é o futuro que me queima as pestanas
que me olha em lume brando
que me ouve com orelhas de rádio de antanho
anunciando guerras de agora
cada uma mais work in progress do que a anterior
e outra ainda que não tarda
a cortar as asas aos menores de vinte
Não é o futuro que busco na escuridão do verão
tão imensamente brla
-- procuro o bolso donde saíam lenços e laços
bolachas moles e rebuçados de quebrar dente,
ganchos de prender o cabelo e as lágrimas.
Não é o futuro
em guerra consigo mesmo
que trepa pelas minhas veias à videira
cismática de mil gavinhas ou de cachos
e lhes pede o sol que ela guarda
porque estes meus vasos sanguíneos
já sabem do caminho mais longo
entre os pés doridos e a raíz dos cabelos.
Não é o futuro que guerreia em causa alheia
purgando o que a vida destrói
o que ela envenena por exclusão de todas as partes
e esperando que o mar pai e o mar mãe
levantem fervura
Não é o futuro
porventura
que devaneia no fundo da veia
mas também não são os passos do passado
que ouço pisar
as tábuas do corredor para onde o rádio de outrora
se encontra agora
irrealmente relegado
(in AL-MANÁK, Regina Guimarães, 12 julho 2025)
Reconnaissance, Renaissance/Regina Guimarães
"nada me envergonha mais do que um elogio rasgado
é como se, num ápice, esfarrapassem,
a roupa trapalhona que me veste deixando -me nua de saberes perante os sábios
despida de mim num desfile de carnaval
nada melhor que o louvor me fala do valor do defeito
me aponta o livre atalho do erro do desvio da jactância
da verdade descolada da parede como um velho cartaz
anunciando um espectáculo adiado ou anulado
Nada mais depressa do que as loas me põem em fuga
e direis não sem causa que alguma casa deserto
para habitar mais perto do não habitar
num lugar como gaiola para aves sem asas
nada me faz corar mais
do que morar
em mim e fora de mim
à conta de um aplauso
(in AL-MANÁK, Regina Guimarães, 14 julho 2025)
Oh, o tempo em que as próprias residências de estudantes eram investimento público, antes de desatarem a licenciar residências de estudantes privadas dw luxo (Campo Alegre, R. D. Pedro V, um belo edifício do Arq. Noé Diniz)
impávidas
(mas não serenas)
estreitas altas finas
casas como fatias de bolo
muito juntas muito esguias
(muito tortinhas coitadinhas)
esventradas partidas em cacos
preparam-nas cortam-nas demolem-nas
para os AL Air BnBs e Hotéis que se seguem
(não rima mas é verdade)
Passar hoje onde era a belíssima Galeria Lumiére (e nada resta, zero, foi tudo destruído) é uma dor de alma (e só apetece esganar -- discurso de ódio sim, assumido -- esganar quem na Câmara permitiu, não soube nem quis proteger aquela Arquitetura. No Porto nada vai restar para a História da camada do séc. XX, cabrões.
hoje, sábado, 16h, na Biblioteca Almeida Garrett, Palácio de Cristal !
As participações serão muitas variadas algumas em palco outras em vídeo outras em texto outras em traço // gamado do mural da Ana Deus