vocês são todos muito engraçados com seus discursos de solitude. basta ver minha situação nesta foto. quando finalmente me lancei na tão sonhada viagem à roma, fiz questão de levar aquela câmera que você dizia não mais prestar. um pré diagnóstico, bem a tua maneira de dar falência as coisas que envelhecem. não seguindo roteiro algum, o que costumava te irritar, caí em sant’angelo, um vilarejo que parecia ter saído de alguma parte minha que ainda não conhecia. em passadas curiosas, podia espiar pelas janelas a vida dos que chamavam aquele oráculo do tempo de casa, sentindo o misto de inveja e fascinação daqueles que vivem nos afrescos do mundo. quis registrar, mas dessa vez comigo dentro do quadro - talvez no desejo de parecer, como os outros, também dali. entreguei a câmera pra um turista colorido, dei algumas indicações de manejo do aparelho e pedi que batesse apenas um retrato assim que parecesse pronto. mal sentei-me no banco e pude ouvir o diafragma ruidoso da câmera fazendo seu trabalho. “quando eu lhe parecer pronto”, foi o que eu disse. agora veja, olhe bem pra mim e diga se não é o retrato de um infeliz. penso se não é exatamente assim que sou visto de fora: aquela postura que antecede a correção; o meio do caminho; o que por ora basta. é, talvez seja um retrato verídico. hoje sou apenas um momento: o do instante que antecede o aprumo; o da íntima negociação com o novo ritmo dos ossos, algo digno apenas do mínimo esforço de quem me tem como percalço. não leve a mal, foi uma bela viagem, mas me pergunto que retrato teria sido este pelos teus olhos. não os últimos, claro. me refiro àquele par que se ascendia sobre mim com alguma curiosidade. quando, diante da casa e do mundo, ainda podia ter tua mais honesta companhia.
preciso de ajuda: estou indo bem. foram 12 arroubos, 4 fins, 1 ensaio de morte e 7 meses de um corpo em modo avião. ainda assim mostro os dentes e, sempre que vejo oportunidade, me empenho pra ver os teus. lavo a louça, defendo grandes ideias, preparo emplastros, aplico torniquetes, manobras de heimilich, acho que sei ninar bem um bebê que não seja meu. quando imigrante, espalhava anúncios nos postes: cuido dos seus gatos, cachorros, coelhos, dos seus filhos. mas se a casa me parecia impropria, não via mal em cruzar a cidade carregando o meu próprio aspirador. na volta éramos eu e a poeira da vida dos outros sob os olhares confusos no vagão. sim, preciso de ajuda: quero falir. quero dizer “infelizmente não irei aguardar até o final pra avaliar o atendimento”. quero bater o joelho forte o suficiente pra chorar por ele e por tudo que me acometeu. preciso de ajuda: quero desfuncionar. ando doendo pra cacete e é dezembro, esse mês com cheiro de formol, angústia e bolo de bacalhau. contudo, é claro, precisando de ajuda, levo jeito pra decorar belas árvores de natal.
“Esta é a última vez que escrevo sobre você”, livro de estreia de @muait pela Casa Philos, é uma reunião de notas de cabeceira extraídas de um caderno que lhe foi companhia durante um período de abandonos, relocalizações e pactos de sobrevivência. Uma belíssima obra ilustrada por @felipe.stefani.arte que percorre poemas por entre traços que revelam as desmesuras da linguagem.
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