Diamantina é uma cidade com longa tradição musical, desde a música sacra, os folguedos populares como as folias e os catopês, as fanfarras, as serestas, a vesperata. Esses dias caminhando pelas ruas da cidade me dei conta de que houve pelo menos dois eventos casuais, para além de toda a tradição musical, que possuem uma dimensão simbólica para a música brasileira com repercussão em todo o mundo.
O primeiro é a passagem de João Gilberto pela cidade entre 1955 e 1957, onde ficou hospedado na casa da sua irmã Dadainha. Reza a lenda que dentro do banheiro da casa da irmã João desenvolveu a levada fundamental que revolucionaria a música de uma forma indiscutível. Este fato é amplamente debatido por especialistas, há livros, teses, filmes. Joao passava horas dentro do banheiro tocando seu violão. Teria sido a acústica do cubículo, o ambiente musical da cidade, João poderia ter desenvolvido a batida da Bossa Nova em outro lugar? Nunca saberemos.
Outro acontecimento significativo foi a viagem de integrantes do Clube da Esquina para a cidade a convite da revista O Cruzeiro em julho de 1971. Eles começariam a gravação do lendário álbum ainda no final daquele ano. Márcio Borges já disse que essa viagem consolidou a ideia de grupo e o encontro casual com Juscelino Kubitschek deu projeção nacional ao clube após a publicação da matéria nas páginas da revista, a mais lida e mais influente do país na época.
A cidade, portanto, ajudou a consolidar a imagem de irmandade entre os clubistas, nas caminhadas pelos becos, na música feita nas calçadas, nos banhos de cachoeira e no encontro informal com um dos personagens mais queridos e importantes da política nacional, o nosso Presidente Bossa Nova, um progressista, em plena ditadura. O registro histórico e casual foi feito pelo fotógrafo Juvenal Pereira.
Publico aqui como ilustração uma foto do icônico Beco do Mota, que inspirou uma canção de Milton Nascimento e Fernando Brant.
Chamada do nosso querido @makelyka para o 7* Mutirão de Violas no @sitio_travessia ♡
Vem com a gente atravessar os sertões, dia 16 de maio, a partir das 17h.
Ingressos no 2* lote a $120 ~ incluem um prato especial da culinária caipira. 🥣
Cheguei em BH no início dos anos 90 e esse prédio já estava em construção. Eu morava na Floresta e passava pela passarela que começava na rua Varginha até a rua Rio de Janeiro para chegar no centro. Dava para ver o heliporto. Naquela época fizeram uma pintura enorme na empena cega com a imagem do Tiradentes.
O prédio envidraçado da Rio de Janeiro com Contorno, no baixo-centro de BH é um elefante branco em vários sentidos. Nele estão emaranhamos Daniel Vorcaro, Roberto Justus, os irmãos Batista da JBS e até Luciano Huck. Um prédio de luxo abandonado, numa região degradada da cidade. Como se não bastasse, uma torre de vidro, inspirada na arquitetura de Washington, totalmente inadequada ao clima tropical, uma espécie de estufa, que armazena calor durante o dia e precisaria de centenas de aparelhos de ar-condicionado para se tornar habitável, jogando ar quente na cidade e contribuindo para aumentar a sensação térmica de calor insuportável.
Um empreendimento que recebeu subsídios do governo por causa da Copa como forma de incentivo ao setor turístico e nunca cumpriu sua função. Começou a ser construído nos anos 80, a construtora acumulou vários processos na justiça do trabalho e faliu. Uma vez fizemos uma ação sócio-cultural ao lado desse prédio com as prostitutas. Era uma festa da Associação Nossa Senhora da Rua. Fomos ameaçados por um traficante. Hoje tenho dúvidas para quem esse traficante trabalhava.
Bancos, fundos imobiliários e investidores não enxergam prédios como moradia e local de trabalho, eles enxergam como ativos financeiros, então não importam questões arquitetônicas, ergonômicas e ambientais. A moradia não é mais abrigo, é produto que gera lucro para investidores. E agora sabemos que serviu para lavar dinheiro.
Sirat é um filme árido, tenso, trágico. Faz muitos anos que não vejo um filme tão perturbador e impactante. Conheço gente que detestou o filme, que o achou sádico, violento, sem propósito. Ouvi relatos de gente que saiu no meio da sessão. Sem dúvida o filme do diretor franco-espanhol de origem galega Oliver Laxe provoca paixões. Para mim foi uma experiência imersiva de cinema no sentido mais amplo do termo. Tem várias questões incontornáveis ali. Do ponto de vista cinematográfico é tecnicamente um roadmovie com imagens muito marcantes, rodado em 16 mm, com atores amadores, exceto o protagonista. Se você tem problema com spoilers sugiro abandonar a leitura a partir daqui.
No fundo aquela tribo distópica está ali tentando encontrar sentido para uma vida sem perspectiva, tentando fugir do sistema, da ordem imposta através da música, da dança e do êxtase. Mas a guerra impõe condições implacáveis. A fuga pelas montanhas onde vai acontecer o primeiro acidente trágico é uma tentativa de fugir do controle do exército. O campo minado é resíduo de uma guerra anterior, a herança maldita de um conflito que ninguém mais sabe quem venceu. Os atores mutilados trazem essa lembrança no corpo e convivem com essa condição da forma mais natural possível.
Na teologia islâmica Sirat é um conceito que representa uma ponte entre o céu e o inferno, mas essa passagem é tão estreita quanto o fio de uma lâmina afiada. Esse é o caminho que todos devem atravessar depois da morte. No filme o conceito do caminho-reto ressurge em vários momentos de forma metafórica e literal como na fuga da caravana, nas curvas da montanha, na caminhada do protagonista sem rumo pelo deserto e por fim na caminhada final dos personagens de olhos fechados no campo minado. [continua nos comentários]
Bad Bunny é um cantor, compositor e produtor musical porto-riquenho. Ele se tornou conhecido mundialmente depois de fazer uma apresentação na final do Super Bowl, o evento esportivo mais visto na TV norte-americana e ganhou destaque ao se tornar o artista mais ouvido no Spotify. Muita gente não sabe mas Porto Rico não é um país soberano, é um território norte-americano não incorporado aos 50 Estados. Quem toma as decisões importantes sobre o território é o Congresso dos EUA. O representante de Porto Rico no congresso inclusive não tem direito a voto, somente a voz. Da mesma forma os porto-riquenhos, apesar de serem cidadãos norte-americanos, não têm direito a voto nas eleições. Eles poderiam ser considerados, portanto, cidadãos norte-americanos de segunda classe. E mais do que isso, nos últimos referendos a maioria da população porto-riquenha votou a favor da anexação pelos EUA. Ou seja, eles querem se tornar o 51º estado norte-americano. Nessa perspectiva a posição do cantor Bad Bunny é muito menos de contestação e de afronta e mais um desejo de se integrar e ser reconhecido como parte da cultura dos EUA. Não custa lembrar que Porto Rico já abriga bases militares e envia soldados para as guerras da metrópole. Acho legítima a reivindicação do povo, assim como é legítimo o discurso do cantor pelo reconhecimento de que a cultura latina é parte integrante da cultura estadunidense. E claro que a mensagem ecoou na comunidade latina como um grito de indignação e pertencimento num momento em que o ICE caça imigrantes nas ruas dos EUA. Mas daí a inferir que ele representa uma voz relevante na luta pela integração de toda a América Latina contra o “imperialismo ianque”, incluindo o Brasil, vai uma distância muito maior do que a de Porto Rico a Miami. [continua nos comentários]
Não sou da área da saúde mas esse tema me toca de uma forma muito pessoal. Meu tio era paraplégico, vítima de poliomielite e ele foi a maior influência na minha formação. Por isso acompanhei com interesse redobrado as notícias sobre a polilaminina desde o início.
No entanto o debate em torno das pesquisas se transformou em torcida de futebol. Quem questiona a falta de rigor científico é atacado. Se for uma pesquisadora é chamada de invejosa; se for um cientista é só um homem tentando invalidar o trabalho de uma mulher; se for um tetraplégico é rotulado como ressentido; qualquer questionamento é desqualificado como sendo de uma pessoa que torce contra o Brasil ou como alguém que não tem fé, pois para a maioria das pessoas no debate público já há provas suficientes de que a polilaminima é um sucesso no tratamento de lesões na medula, mesmo que não exista evidências científicas de sua eficácia. Não estou torcendo contra, apenas chamando atenção para o fato de que não podemos ignorar a realidade só porque ela contraria nossos desejos. Esse desejo que se transforma em torcida e depois em cegueira é o mesmo que vai estar impregnado em corações e mentes nesse ano de Copa do Mundo e de eleições.
Desde o início eu fiquei com o pé atrás, pois quando busquei o lattes da pesquisadora achei que ele não tinha a robustez que o currículo de um pesquisador de ponta costuma ter. Sim, ela tem 25 anos de pesquisa, mas tem muito poucas publicações, quase nenhuma em revistas especializadas e reconhecidas mundialmente pelos pares. Inclusive isso é curioso, somente no Brasil há essa comoção com a pesquisa da professora Tatiana Sampaio. Uma descoberta tão importante para a ciência não teve destaque em nenhuma revista internacional de ciência. Somente a mídia leiga no Brasil. Outro detalhe que me acendeu o sinal amarelo foi o fato de que ela solicitou a patente da descoberta através de uma empresa privada, a Cristália. Isso me soou estranho pois a pesquisa foi desenvolvida numa universidade pública. Além disso o laboratório Cristália fez fortuna durante a pandemia de Convid-19 vendendo cloroquina para o governo Bolsonaro. [continua nos comentários]
Queda do Céu, a canção que levou 6 anos pra ficar pronta, como contei no último post.
Compus a melodia para o meu primeiro álbum, e naquela ocasião, @danteozzetti disse: essa música tem a cara do @makelyka . Vamos enviar pra ele letrar? E assim foi, enviamos, e 6 anos depois recebo este grito em forma de canção do Makely. Confesso que não estava mais esperando esta letra, mas em nenhum momento pedi a melodia de volta. Valeu a pena a espera.
Uma foto do fotógrafo Paul Hansen do ataque em Gaza em 2012 e a tragédia em Brumadinho em 2019 inspiraram a letra.
Parece que a música segue mais atual do que nunca, infelizmente. 😢
Tenho uma canção com o @makelyka que levou 6 anos pra ficar pronta. Nunca imaginei que receberia uma letra tão impactante e mágica quanto aquela, que só foi possível devido ao que aconteceu nesses anos de espera. Agradeço ao @danteozzetti pela ponte! ❤️
Quero saber a sua opinião: será que a IA vai consegui substituir essa magia presente no tempo orgânico que preenche o encontro entre duas pessoas?
Me conta aqui nos comentários a sua opinião.
Neste segmento, cinéfilos falam sobre filmes que marcaram suas vidas.
Makely Ka, músico, compositor e escritor, compartilha suas opiniões sobre "O Cavalo de Turim", de Béla Tarr, e como o diretor o inspira.
#belatarr #ocavalodeturin #indicaçãodefilme
Partiu nesta madrugada o querido Marcelo Pretto, um dos cantores mais incríveis que eu já conheci, intérprete genial, uma extensão vocal absurda, um senso rítmico fora do comum, pesquisador incansável, conhecedor profundo da cultura popular brasileira mais genuína, amigo generoso e sempre disponível. Marcelo cantou várias parcerias minhas com Chico Saraiva e com Kristoff Silva. Nunca me esqueço o arrebatamento no dia em que ele cantou comigo na pequena e aconchegante Casa de Francisca, quando ainda era nos Jardins. Tínhamos planos de gravar algumas coisas novas juntos quando ele se recuperasse. Não deu tempo. Que você tenha feito uma boa passagem Mitsu!
Hoje quero falar do ministro Alexandre de Morais e da jornalista Malu Gaspar. Com as novas revelações sobre o banco Master ficamos sabendo o que todos já desconfiavam: Vorcaro é gangster, mafioso, bandido, chefe de quadrilha. Para além da morte do sicário e das ameaças de violência física contra o jornalista Lauro Jardim, um detalhe que me chamou atenção e passou quase despercebido nas matérias que li na imprensa foi a revelação de que ele pagava sites e perfis de influenciadores para atacar jornalistas. Quero ser mais específico: o banqueiro estelionatário, incomodado com a publicação da jornalista Malu Gaspar sobre o contrato milionário firmado com a mulher do ministro do STF, pagou veículos de imprensa e influenciadores para atacar a jornalista.
O mais incrível é que havia entre esses veículos de imprensa sites e influenciadores progressistas. E adivinha quem seguiu como manada enfurecida e desferiu ataques covardes à jornalista? Sim, o nosso campo progressista de militantes de esquerda. Acho uma vergonha o que fizeram, muitos inclusive que me leem aqui. Não preciso citar nomes, mas atacaram covardemente a mensageira, tal como os bolsonaristas fizeram tantas vezes com as jornalistas. Óbvio que não podemos descartar os elementos misóginos e machistas dessa atitude. E tudo porque ela revelou que o nosso herói, o ilibado ministro, vinha enriquecendo às custas do banqueiro salafrário.
Não custa lembrar mais uma vez que Alexandre de Morais é um ministro conservador, punitivista, indicado por ninguém menos que Michel Temer, e que foi adotado pela esquerda por seus serviços prestados à democracia numa situação limite, mas não está acima da lei. As últimas revelações confirmam mais uma vez o envolvimento do ministro e de sua mulher na trama do banco Master. Tanto quanto Toffolli, eles devem explicações e precisam ser investigados. [continua nos comentários]
Por causa da polêmica envolvendo o diretor Win Wenders semana passada no Festival de Berlim me lembrei do furor que o filme “Dias Perfeitos” causou na época de seu lançamento.
O filme é a representação mais perfeita do que eu chamo, por falta de expressão melhor, de fetiche da aridez. Um certo conformismo com a miséria da vida contemporânea, uma glamourização da falta de perspectiva numa grande cidade. Parece que com a derrocada das lutas por igualdade social, de distribuição das riquezas, do fim dessas utopias que por séculos alimentaram uma certa ideia de vida em comunidade, o que resta são esses pequenos vislumbres de beleza no meio do nada de uma vida árida e sem sentido.
Compreendo a comoção das pessoas que se identificaram com o filme e reconheço a atuação brilhante do premiado ator Koji Yakusho. Mas nessa chave talvez soe como ironia a atividade de lavar banheiros públicos o dia todo e morar num local onde você não tem um banheiro privado para tomar banho.
Me parece que o deslumbre das pessoas com o filme tem muito a ver com esse individualismo despolitizado, essa ideia de que cada um encontre sua forma de se adequar ao sistema e busque nele seus próprios motivos para continuar levantando da cama todos os dias, mesmo que as perspectivas sejam as piores possíveis na máquina de moer carne do capitalismo contemporâneo. De certa forma o filme corrobora a posição do diretor quando ele tenta despolitizar o cinema e minimizar a causa palestina.