Enquanto preparo minha apresentação para o Congresso da
@caavisual , tenho pensado e lido sobre cuidado. Fecho o trabalho destacando a tendência entre artistas de utilizar o afeto como estratégia para combater a violência contra o corpo da mulher.
Muitos já escreveram sobre afeto, carinho, cuidado. Recentemente, o curador da 36a. Bienal de São Paulo, Bonaventure Soh Bejeng Ndikung, publicou no Brasil um livro brilhantemente traduzido como “Artimanhas do Cuidado” pelo Bruno da Silva Amorim. Nele, o autor nos adverte sobre o sequestro do cuidado pela agenda capitalista. Me cativou particularmente a reflexão sobre a área em que atuamos – eu, ele e tantos amigos e colegas que me seguem aqui. No ensaio, Bonaventure se pergunta “como podemos imaginar a curadoria como um processo (…) de cura social ou espiritual (…) no que se refere às raízes de nossas preocupações e problemas sociais?”
Isso é lindo. É, inclusive, o que me move. Ocorre que, antes mesmo de pensar na curadoria como uma possibilidade de cura para a sociedade, eu acho que devemos pensar em não adoecer os artistas e os trabalhadores da área.
Daí, resolvi abrir esse espaço de conversa para saber como as pessoas têm se relacionado com o sistema da arte (seja trabalhando nele ou usufruindo dele). Nesse meio, a gente fala muito de cuidado, valoriza o afeto e o amor pelo ofício. Indo além, é muito ampla – e comprovadamente benéfica - a aplicação da arte como terapia na área da saúde. No entanto, parece que o sistema da arte em si está adoecido. Evocando Achille Mbembe: brutalizamos o sensível.
É tanta cobrança, uma velocidade tão grande de acontecimentos, o calendário corrido; e a necessidade de pertencimento (e aqui, é claro que vale uma enorme discussão sobre privilégios e hierarquias). Enfim, quero dizer que a prática está muito longe do discurso.
Sei que essa sensação é geral e irrestrita; é um reflexo - sintoma? – dos nossos tempos e não afeta só o campo das artes. Mas será que nós, pregando o que pregamos, estando onde estamos e, sobretudo, nos valendo da influência da arte na sociedade, não deveríamos fazer frente a isso?
Cito e ecoo bell hooks. E vocês, o que acham?
[Créditos nos comentários]