Neste ano de 2024 completo 30 anos trabalhando na pós-produção de fotografia.
Desde os tempos analógicos, quando montei, em parceria com a fotógrafa Cristina Guerra, o laboratório de revelação e ampliação “Oficina de Fotografia”, que ficava na Alameda Barão de Limeira, no centro de São Paulo.
De lá para cá muita coisa mudou e a tecnologia nos levou para outros ares, permitindo construções de imagens que nunca sonhava em fazer quando usava meu pincel com a famosa tinta Spotone para retocar as fotos.
Nos últimos anos, além da Lovely House, tenho me dedicado na pós-produção de trabalhos autorais para artistas, o que já fazia lá nos anos 1990, para exposições ou publicações de livros.
* Foto 01 - Alguns livros em que tive a oportunidade de trabalhar no tratamento das imagens.
* Foto 02 - Cartão de visita da Oficina de Fotografia
* Foto 03 - Laboratório em 1994
* Foto 04 - Tinta Spotone que usávamos para retoques
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Alguns artistas que trabalho ou já trabalhei algum dia:
André Penteado
Araquem Alcântara
Bruno Dunley
Claudia Jaguaribe
Caio Reisewitz
Dalton Paula
Editora Madalena
Eli Sudbrack
Fabio Miguez
Felipe Russo
Flávia Junqueira
Fotô Editorial
Familia Editions
Iatã Cannabrava
Irmãs de Criação
João Farkas
Juan Esteves
Lovely House
Lucia Koch
Luiz Zerbini
Maurício Nahas
Marcelo Zocchio
Marcio Scavone
Miro
Ricardo Barcellos
Rosana Paulino
Rochelle Costi
Rubens Mano
Tadáskia
e muitos outros...
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orçamentos por e-mail [na bio]
Ontem levei um baita susto quando abri o Instagram e dei de cara com o post da @londoncallingdiscos anunciando a morte de Afrika Bambaataa.
Para mim, Bambaataa era desses nomes que parecem imortais — daqueles sobre os quais a gente sempre vai ouvir algum comentário aqui ou ali, menos a notícia da partida.
Acho que ele foi a única pessoa de quem fui realmente fã no universo musical. Uma dessas figuras capazes de mudar comportamento — e talvez até o rumo de uma vida.
Foi através da música dele que deixei de ser aquele garoto medroso, tímido, que andava sempre de cabeça baixa, esperando uma piadinha de mau gosto dos colegas da escola.
Comecei a frequentar os bailes de comunidade de Uberaba, no interior de Minas Gerais, com meu amigo Joaquim. Era lá que aconteciam os bailes onde o Hip Hop começava a ganhar espaço, reunindo grupos de meninas e meninos que passavam a semana inteira ensaiando passinhos para se apresentar no salão do Clube Elite, aos sábados à noite.
Aquilo foi minha salvação. Eu, que tinha pavor de dançar música lenta com as meninas, nas rodas de break podia finalmente soltar o corpo — sem medo nem vergonha.
Se não me falha a memória, ouvi Bambaataa pela primeira vez na rádio AM Mundial, do Rio de Janeiro, entre 1982 e 1983. A música era “Planet Rock”, que tinha acabado de ser lançada pela Tommy Boy Records. O programa passava altas horas da noite.
Fiquei acordado esperando o momento certo para gravar a faixa no rádio Toshiba [foto 07] da minha mãe. Depois de gravar, não parei mais de ouvir e apresentar para toda galera da cidade, que piravam com o ritmo.
A partir dali, nunca mais fui o mesmo. Deixei o cabelo crescer, comecei a usar brinco, colares, braceletes, broches e óculos escuros [foto 06].
Eu e o Joaquim [foto 05] saíamos quase todas as noites com meu aparelho 2 em 1 da Aiko [foto 08] — potente para a época — para dançar break pelas ruas de Uberaba.
Foi um momento real de ruptura. De descoberta. De liberdade. Sem drogas ou bebidas, só com música boa no toca fitas.
Obrigado Bambaataa!!!
Foto 01 e 02 - Disco de vinil e Cd do Africa Bambaatta e Soulsonic Force, com recortes de jornal, revista e retratos e desenho meus da época.
Em setembro de 1994 montei uma cabine de fotografia instantânea Polaroid na Praça Ramos de Azevedo, no centro histórico de São Paulo, bem em frente ao Teatro Municipal.
Veja imagens da exposição no CARROSSEL >>>
Durante 30 dias fiz mais de 5 mil fotos 3x4 de transeuntes da região. As imagens eram trocadas, em forma de escambo, por objetos escolhidos na hora pelos retratados, que funcionavam como pagamento. Dinheiro não era aceito.
O projeto, chamado “Cidade Secreta”, integrou a exposição urbana coletiva “Arte /Cidade – Cidade e seus fluxos”, com curadoria de Nelson Brissac, e ocupou a antiga sede do Banco do Brasil, atual CCBB.
As fotografias eram feitas em dupla: uma era entregue ao retratado e a outra passava a fazer parte da exposição.
Essas imagens foram exibidas junto aos objetos coletados, formando um grande painel que ocupou três salas expositivas do atual CCBB.
Nesse trabalho, o indivíduo era colocado diante de uma situação em que precisava, em um tempo limitado, se autoquestionar e avaliar a si mesmo, decidindo quanto vale a sua própria imagem.
O conjunto resultante revelou um universo de signos que pode ser lido como uma espécie de estudo antropológico dos transeuntes da cidade, fazendo emergir possíveis chaves de leitura para uma determinada fauna urbana.
Posteriormente, este trabalho foi realizado também no Banff Centre, no Canadá, seguindo os mesmos procedimentos adotados em São Paulo.
Artistas participantes do Arte /Cidade – Cidade e seus fluxos:
Abílio Guerra, Andrea Tonacci, Anna Mauylaert, Artur Lescher, Artur Matuck, Carlos Fadon Vicente, Carlos Reichenbach, Cecílio Neto, José Fujocka, Guto Lacaz, Iole de Freitas, José Wagner Garcia, Lenora de Barros, Otavio Donasci, Regina Silveira, Rubens Mano, Tadeu Jungle, Tadeu Knudsen, Walter Silveira, Waltercio Caldas e Wilson Sukorski
Vídeo: reportagem da jornalista Maria Cândida para a Tv Record
Em junho de 2000 participei da exposição coletiva “Em Obra”, no Paço das Artes, que na época ainda funcionava na USP.
Para essa mostra desenvolvi o projeto “Receptor de Ações”.
Aluguei uma linha de telefone fixo por um mês e instalei um aparelho de fax no centro da sala expositiva, diante de uma parede branca.
O número foi divulgado em diferentes mídias: cartazes lambe-lambe, folhetos distribuídos nos faróis, anúncios em jornais e rádios do interior de São Paulo.
A proposta era simples e direta: qualquer pessoa podia agir e interferir em um respeitado espaço expositivo de arte. Bastava enviar sua mensagem por fax.
Desenhos, imagens e palavras iam sendo fixados lado a lado na parede, formando um painel coletivo e imprevisível.
Enviar por fax uma fração de obra que talvez não víssemos, ou que não pudéssemos ver sem sair de casa, tornava visível essa distância que, paradoxalmente, também nos permite atravessar.
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No carrossel temos duas fotografias feitas na época no espaço espositivo, imagens dos lambe-lambes colados em alguns muros da cidade e reproduções atuais de alguns faxes enviados, com o desgaste natural causado pelo tempo.
Obs: os lambe-lambes foram impressos na @graficacinelandia , que na época era especialista neste tipo de impressão em grande formato.
No ano 2000 fui convidado pela artista Lucrécia Couso para participar da exposição coletiva “Projeto Júlio”, inaugurada em 25 de janeiro — aniversário da cidade de São Paulo — na Estação Júlio Prestes, no centro histórico.
A estação é um lugar de passagem. Milhares de pessoas chegam diariamente do subúrbio em direção ao centro.
Quase sempre atravessam esse espaço sem vê-lo, como se a paisagem fosse apenas um intervalo entre o trabalho e a casa.
Pensando nessas ideias de passagem e memória, desenvolvi o projeto “Paisagem Urbana”.
Durante cinco dias distribuí 3.000 folhetos dentro dos vagões, convidando os passageiros a deixarem, no saguão da estação, aquilo que quisessem: textos, fotografias, objetos.
O trabalho resultou em uma cortina transparente com múltiplas bolsas, onde as pessoas depositaram suas lembranças.
O conjunto — formado principalmente por textos e fotografias — aproximava-se de um confessionário público, espaço onde desejos e frustrações eram partilhados.
Um espaço de escuta dentro de um espaço de trânsito.
Participaram da exposição as/os artistas: Eduardo Ruegg, José Fujocka, Liana Virdis, Luciana Molisani, Lucrécia Couso, Lynn Carone, Maria Helena Baracat e Richard Calhabéu.
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O ano era 1994.
Nos pequenos estúdios fotográficos do centro de São Paulo circulava um jovem rapaz de 25 anos — com cara de 18 — dizendo representar uma empresa que iria salvar o planeta das toxinas geradas pelo excesso de material fotográfico produzido naquela época.
O discurso não fazia muito sentido. Ainda assim, funcionou.
O rapaz, que neste caso era eu, recolheu centenas de quilos de negativos e cópias fotográficas.
Desenvolvi um projeto de arte e pesquisa onde criei uma empresa fictícia chamada CENAP – Centro de Análises e Pesquisa de Reciclagem Fotográfica, com a missão de recolher negativos e ampliações que já não tinham utilidade para seus donos.
O argumento era direto: os suportes fotográficos seriam altamente tóxicos, e o CENAP seria a única empresa brasileira capaz de reciclá-los.
No material de divulgação, o artista alemão Joachim Schmidt aparecia como o cientista que teria descoberto essas toxinas. Schmidt foi quem defendeu, no final dos anos 1980 na Alemanha, que o mundo já tinha fotografia demais — que talvez fosse hora de reciclá-las, já que não fazia sentido fotografar algo que já havia sido fotografado milhares de vezes.
Criei um kit completo: cartazes colados pelo centro, crachá, folder, recibos, cartão de visita. E vestindo uma roupa social, com uma maleta de metal na mão e crachá no bolso da camisa, fazia a abordagem diretamente nos estúdios.
Durante seis meses, o projeto acumulou cerca de 680 mil imagens: casais clicados de surpresa nas ruas, nus, pessoas com fantasias de carnaval, retratos etc… Um arquivo involuntário da cidade.
Essas imagens carregam códigos de identificação: época, costumes, condição econômica, cultura. Um material que permite decodificar comportamentos e modos de vida.
Parte desse acervo foi catalogada e integrou uma pesquisa patrocinada pela Bolsa Vitae de Artes que ganhei no ano de 1993.
A câmera usada por estes fotógrafos era a Olympus Pen, que duplicava a quantidade de poses, usando meio frame. Um filme de 36 poses gerava 72 fotos. No projeto consegui quase 10 mil negativos.
Em outubro de 1993 realizei meu primeiro projeto com ações em espaços publicos: a exposição “Homem-Sanduíche”.
Foram convidados 15 artistas, alem de mim, para realizarem um par de trabalhos para serem expostos nas ruas do centro
de São Paulo através dos plaqueiros (Homens-Sanduíche), típicos daquela região, que na maioria das vezes transporta placas com os dizeres “Compro Ouro”.
A exposição teve abertura no saguão do Teatro Municipal com trilha sonora original produzida por @andre_abujamra e depois se espalhou pelos calçadões do centro, onde os trabalhos ficaram expostos com os plaqueiros de 11 a 16 de outubro de 1993.
Foi um projeto que acredito ter ficado guardado na memória de quem esteve presente. Eu mesmo não tinha a menor ideia do impacto que seria ver todos aqueles 16 homens, na sua grande maioria senhores aposentados, descendo pelo tapete vermelho do Teatro e saindo para as ruas.
Nenhum deles nunca tinham entrado no interior do Teatro Municipal, e por algum momento, foram as principais estrelas daquela manhã de sábado de 09 de outubro. Pena não existir nenhum registro deste instante.
Artistas participantes:
Cao Guimaraes, Claudio Freitas, Cris Bierrenbach, Cristina Guerra, Everton Ballardin, Hélio Melo, Iran do Espírito Santo, Jean Guimarães, José Fujocka, Marco Paulo Rolla, Nina Moraes, Paulo Von Poser, Penna Prearo, Rochelle Costi, Rosângela Rennó e Rubens Mano.
Sequência do carrossel:
01 - Exposição na Rua Barão de Itapetininga
02 - Homens-sanduíches em frente ao Teatro Municipal
03 - Exposição na Rua barão de Itapetininga
04 - Exposição na Rua Barão de Itapetininga
05 - Catálogo da Exposição que teve texto escrito por Felipe Chaimovich
06 - André Abujanra segurando o trabalho da Cristina Guerra para o catálogo
07 - Homem segurando o trabalho da Rochelle Costi para o catálogo
08 - Margot Pavan segurando o trabalho da Rosângela Rennó para o catálogo
09 - Sérgio Bianchi segurando o trabalho da Cris Bierrenbach
10 - Capa do Caderno SP do jornal O Estado de São Paulo com texto escrito por Ubiratan Muarrek
11/12 - Detalhes da matéria de jornal
Em 2001 fui convidado pelo Instituto Goethe de São Paulo para fazer a curadoria de uma exposição tendo como ponto de partida o acervo do estúdio de fotografia Mathesie, que desde 1945, numa esquina de Berlim, foi um grande captador de poses, dirigidas pela fotógrafa Charlotte, que acumulou durante suas quatro décadas de atividade mais de 300.000 negativos de fotos, que foram confiadas ao Museu Kreuzberg após o encerramento de suas atividades em 1983.
Para a exposição, com o título “Pose Detida”, e que aconteceu de maio a junho de 2001 na Oficina Cultural Oswald de Andrade, foram convidades Caio Reisewitz, Cristina Guerra, Dora Longo Bahia, José Fujocka, Luciana Molisani e Orlando Maneschy para desenvolverem obras a partir das referências fotográficas de Mathesie.
O texto do catálogo foi escrito por Ronaldo Entler [@entler ] e a matéria de capa da “Folha Acontece”, de 15 de maio de 2001, foi o primeiro texto crítico assinado por Éder Chiodetto, que teve sua estreia com nossa exposição e hoje é um dos mais importantes críticos e curadores de fotografia de nosso país.
Sequência do carrossel:
01 - Capa do convite da exposição, com Cristina Guerra, Luciana Molisani, Caio Reisewitz, José Fujocka, Orlando Maneschi e Dora Longo Bahia
02 - Matéria de capa da “Folha Acontece” com texto do @ederchiodetto
03 - catálogo da exposição
04 - Matéria de divulgação do jornal “O Estado de São Paulo”
05 - Família Russa fotografada pelo estúdio Mathesie
06 - Casal fotografado pelo estúdio Mathesie
07 - Homem fazendo pose para fotografias
08 - Luciana Molisani e Fujocka simulando uma pose das fotografias feitas por Charlotte
@caio_reisewitz@cristinaguerra2013@lumolisani@orlando_maneschy@depoisdofimdaarte
Mais um trabalho em processo de aprovação de cor e tratamento de imagens.
Todas provas ok e assinadas, agora só liberar para impressão.
Logo mais teremos novidades por aí.