2025 - pangeia Ou
Estar no mundo sem a certeza de um amor incondicional.
•••
Après-coup, na psicanálise, é o nome de uma experiência que só encontra sentido depois. O acontecimento vem antes; a compreensão, mais tarde.
Era uma noite de terça-feira. Eu caminhava com o Zaire quando, quase sem perceber, levei a mão ao bolso e peguei o celular. Fiquei ali, olhando para a tela acesa. Queria ligar para minha mãe e dizer qualquer coisa do dia, nada de especial. Mas isso já não era mais possível.
Foi então que algo se abriu.
Não como lembrança, mas como falta.
Naquele instante, percebi: percebi que estava no mundo sem a certeza de um amor incondicional.
Este foi, sem dúvida, o ano mais difícil da minha vida. À ausência da minha mãe somou-se uma escolha silenciosa: fazer do cuidado com meu pai o eixo central da minha vida. Um deslocamento discreto, porém irreversível.
Em 2025, a Pangeia se rompeu. As placas se moveram, o chão cedeu, os continentes se afastaram. O mundo não deixou de existir, mas já não é o mesmo mapa.
Não é que nada mais faça sentido.
É que, agora, viver exige inventar outros.
Que 2026 seja um percurso onde encontre mais sentidos
Dona Jô me contou sobre sua condição no dia 27/08, embora já soubesse havia quase um mês. No dia 04/09, ocorreu a internação; a notícia dos cuidados paliativos chegou em 11/09; e no dia 15/09 aconteceu sua passagem. Em meio a esse curto intervalo de dias, houve uma mudança radical em nossa vida.
No dia 11, quando conversei com o médico oncologista e ele me explicou que o tipo de câncer da minha mãe era o mais agressivo e pouco responsivo ao tratamento, tive uma reação muito sóbria. Sóbria a ponto de o médico questionar se eu havia compreendido. Respondi que sim... Só restava oferecer o maior conforto possível à minha mãe, pois, em termos de tratamento clínico, nada mais podia ser feito.
Hoje, ao relembrar esse momento, faço-me algumas questões: será que estou em processo de negação? É uma possibilidade. Outra possibilidade é que eu esteja compreendendo a dialética vida–morte. Pois sim, entendo que existe uma relação muito íntima entre vida e morte. E que a vida não começa necessariamente com o nascimento, nem a morte ocorre unicamente com o fim do corpo biológico
Parte dessa compreensão pode ser explicada pelo Alzheimer do meu pai. Afinal, já vivo um processo de luto, pois o pai que tenho hoje é muito diferente do pai que um dia tive. Se antes eu tinha um pai que me fazia sentir protegido, hoje tenho um pai a quem preciso proteger. Também há outras nuances — e aqui não quero poetizar o Alzheimer —, mas penso que as defesas narcísicas de meu pai ruíram junto de sua memória, o que fez com que ele passasse a ter outra fluidez em seus afetos. A frequência com que ele diz que nos ama aumentou consideravelmente.
Nesse processo com meu pai, deparei-me com uma frase que me marcou muito: o contrário da vida não é a morte, é o esquecimento.
Nesse sentido, quando digo que minha mãe fez uma passagem, é porque ela não morreu em minha memória nem na maneira como lido com o mundo. Há algum tempo, vi uma camisa com os seguintes dizeres: “tudo que sei sobre amor eu inventei.” Achei linda, mas meu primeiro pensamento foi: “nunca poderia usar uma camisa dessas”, porque tudo que sei sobre amor foi Dona Jô quem me ensinou.
(Segue…)
“Nessa gramática rítmica, os movimentos são de avanços e recuos, progressão e retroação, expansão e condensação, numa contração e dilatação temporais simultâneas que escandem as espacialidades também como giras desenhadas, coreografadas, cartografadas.”
Vilém_Flusser-Filosofia_da_caixa_preta.txt
Ou
“O caráter aparentemente não-simbólico, objetivo, das imagens técnicas faz com que seu observador as olhe como se fossem janelas e não imagens.”