Que honra poder abrir pra um dos meus maiores ídolos. Sem ele, provavelmente eu não tocaria, e o Confronto nem existiria. Foram 2h35 de set, e eu retribuí esse privilégio da forma mais sincera possível: totalmente entregue.
Momento histórico pra Brasília receber alguém tão relevante para que tantas coisas tenham acontecido. No sábado, quem esteve no Âmbar teve o prazer de ver e ouvir de perto um dos capítulos mais importantes da história da música dos últimos 40 anos: um artista que ajudou a moldar o Dub e influenciou um número infinito de pessoas ao redor do mundo, do reggae à música eletrônica.
Obrigado, Mad Professor
Desde quando comecei a viajar, sempre tive a sensação de como a revelação de estar num lugar estranho é proporcional à sua possibilidade de conexão interior. Ter essa percepção me fez criar uma teoria: quanto mais distante do seu cotidiano, mais incomum, maior é a força do deslumbramento com o novo e o diferente, aproximando-se das descobertas e do encantamento da infância. Viajar ao desconhecido é a possibilidade de acessar à nossa criança primitiva onde tudo é novidade.
Eu me achava solitário nessa impressão até ler Cidades Invisíveis, do Italo Calvino, e ver ali posto por ele um pensamento na mesma direção:
“Ao chegar a uma nova cidade, o viajante reencontra um passado que não lembrava existir: a surpresa daquilo que você deixou de ser ou deixou de possuir revela-se nos lugares estranhos, não nos conhecidos.”
Quase 40 dias de deslocamento, e nas fotos sou eu totalmente exposto a essa sensação e à certeza de que a principal viagem é a si mesmo e ela continua sendo longa e sem destino definido.
Pensando aqui em uma parte do Brasil que anseia por ser europeia, tentando se vincular a algo considerado mais nobre e puro, mas esquecendo que a Península Ibérica foi dominada por quase 800 anos pelos árabes e que essa influência moldou quem a gente é hoje.
Parto de Istambul agradecendo por me colocar em conexão direta com esse nosso passado. Que cidade inacreditável, que sobreviveu a tudo e nos lembra da possibilidade real de convivência entre diferentes que, neste momento, se dilui na guerra.
Sou infinitamente grato pelos meus privilégios e consciente de que a minha alegria é a maior forma de reconhecimento por isso.
Obrigado, Istambul, por me fazer feliz!
Continuando a dividir as minhas músicas perfeitas, desta vez a justificativa ultrapassa o mero gosto pessoal e se estende à sua importância.
𝐑𝐞𝐠𝐢𝐦𝐞𝐧𝐭 foi lançada como single e depois como parte do álbum 𝐌𝐲 𝐋𝐢𝐟𝐞 𝐢𝐧 𝐭𝐡𝐞 𝐁𝐮𝐬𝐡 𝐨𝐟 𝐆𝐡𝐨𝐬𝐭𝐬 (1981), do 𝐁𝐫𝐢𝐚𝐧 𝐄𝐧𝐨 com 𝐃𝐚𝐯𝐢𝐝 𝐁𝐲𝐫𝐧𝐞, do 𝐓𝐚𝐥𝐤𝐢𝐧𝐠 𝐇𝐞𝐚𝐝𝐬. Não sei nem por onde começar a falar da importância dela e desse disco para a história da música. Talvez dizendo como ela mudou a minha vida ao abrir uma infinidade de percepções sobre a música fora do mundo ocidental.
O termo 𝐖𝐨𝐫𝐥𝐝 𝐌𝐮𝐬𝐢𝐜 foi criado como estratégia de marketing para facilitar a venda de álbuns que não se encaixavam no espectro da música ocidental. Mas a verdade é que essa expressão, além de pejorativa, por reforçar a superioridade de uma cultura hegemônica, tem como principal problema reduzir toda a infinita variedade da produção musical do chamado “terceiro mundo” a um único estilo.
De qualquer maneira, 𝐑𝐞𝐠𝐢𝐦𝐞𝐧𝐭, que para mim representa totalmente o álbum, é pioneira ao apresentar uma conexão possível e em pé de igualdade entre a produção ocidental e oriental. E sua relevância ultrapassa sua simples existência, por ser revolucionária na forma de produção, sendo precursora do uso de samples e da construção de camadas sonoras que criam uma atmosfera capaz de transportar o ouvinte para uma realidade distante da sua.
Dois comentários super relevantes para mim: primeiro, o meu choque ao conhecer 𝐑𝐨𝐛𝐞𝐫𝐭 𝐅𝐫𝐢𝐩𝐩, guitarrista que gravou a faixa. Ele é tão único no jeito de tocar que acabou desenvolvendo um sistema chamado 𝐅𝐫𝐢𝐩𝐩𝐞𝐫𝐭𝐫𝐨𝐧𝐢𝐜𝐬, que simplesmente é absurdo. A outra coisa foi, depois de um tempo, descobrir o canto árabe original usado no sample, um trecho vocal de 𝐀𝐛𝐮 𝐙𝐞𝐥𝐮𝐟, da cantora libanesa 𝐃𝐮𝐧𝐲𝐚 𝐘𝐨𝐮𝐧𝐞𝐬.
É isso, mais de 40 anos dessa canção perfeita, que não envelheceu nada!
اِسْتَمْتِع
Ainda pensando no que faz uma canção ser perfeita, e sem chegar a uma conclusão objetiva, fico com a impressão de que essa sensação simplesmente nasce decalcada em certas criações musicais.
É o caso de “𝐘𝐨𝐮’𝐯𝐞 𝐆𝐨𝐧𝐞” (1989), do projeto de estúdio 𝐁𝐚𝐬𝐬𝐥𝐢𝐧𝐞, liderado pelo produtor londrino 𝐓𝐨𝐧𝐲 𝐇𝐞𝐧𝐫𝐲, que recrutou para essa gravação a cantora 𝐋𝐨𝐫𝐫𝐚𝐢𝐧𝐞 𝐂𝐡𝐚𝐦𝐛𝐞𝐫𝐬.
É impressionante como a mistura da melodia dos teclados com um baixo de influência 𝐫𝐞𝐠𝐠𝐚𝐞 imprime uma marca única a esse tipo de 𝐬𝐨𝐮𝐥 que começou a ganhar força em 𝐋𝐨𝐧𝐝𝐫𝐞𝐬 naquele período. Talvez isso explique por que essa produção soa tão especial. No caso de 𝐓𝐨𝐧𝐲 𝐇𝐞𝐧𝐫𝐲, filho de pai jamaicano, também aparece claramente a ligação com a cultura 𝐬𝐨𝐮𝐧𝐝 𝐬𝐲𝐬𝐭𝐞𝐦 do 𝐫𝐞𝐠𝐠𝐚𝐞.
Sempre que escuto essa obra-prima do 𝐁𝐚𝐬𝐬𝐥𝐢𝐧𝐞, é impossível não lembrar do 𝐒𝐨𝐮𝐥 𝐈𝐈 𝐒𝐨𝐮𝐥, talvez o exemplo mais bem-sucedido desse reprocessamento do 𝐬𝐨𝐮𝐥 a partir de um background do 𝐫𝐞𝐠𝐠𝐚𝐞.
Que momento absurdo da 𝐦𝐮́𝐬𝐢𝐜𝐚 𝐛𝐫𝐢𝐭𝐚̂𝐧𝐢𝐜𝐚.
Outro dia postei no story uma música que eu achava perfeita e fiquei com vontade de trazer pra cá alguns sons que, pra mim, estão nesse mesmo lugar.
Perfeição é um critério totalmente subjetivo, mas tem músicas que batem de um jeito tão especial que parece que tudo se encaixa.
E pra quem sempre reclama que eu quase não falo de reggae, pra começar a reparar isso antes que o mundo se acabe, toma essa versão absurda do 𝗕𝗮𝗿𝗿𝘆 𝗕𝗶𝗴𝗴𝘀 de 𝗟𝗼𝘃𝗲 𝗖𝗼𝗺𝗲 𝗗𝗼𝘄𝗻, de 1983.
Aqui rolam duas perfeições que se encontram: a canção original, hit supremo da disco da 𝗘𝘃𝗲𝗹𝘆𝗻 𝗖𝗵𝗮𝗺𝗽𝗮𝗴𝗻𝗲 𝗞𝗶𝗻𝗴, de 1982, e a reinterpretação de 𝗠𝗿. 𝗕𝗶𝗴𝗴𝘀, que começou a carreira na Jamaica como vocalista dos 𝗗𝗿𝗮𝗴𝗼𝗻𝗮𝗶𝗿𝗲𝘀, banda do 𝗕𝘆𝗿𝗼𝗻 𝗟𝗲𝗲, e depois estourou na Inglaterra com um sucesso atrás do outro.
𝗟𝗼𝘃𝗲 𝗖𝗼𝗺𝗲 𝗗𝗼𝘄𝗻
Minha música perfeita de hoje.
The other day I posted a song on my stories that I thought was perfect, and it made me want to share a few tracks here that sit in that same category for me.
Perfection is obviously a very subjective thing, but some songs just hit in such a special way that everything falls perfectly into place.
And for those who always complain that I hardly ever talk about reggae, here you go. This incredible version by 𝗕𝗮𝗿𝗿𝘆 𝗕𝗶𝗴𝗴𝘀 of 𝗟𝗼𝘃𝗲 𝗖𝗼𝗺𝗲 𝗗𝗼𝘄𝗻, released in 1983.
What we have here is the meeting of two kinds of perfection: the original song, a massive disco hit by 𝗘𝘃𝗲𝗹𝘆𝗻 𝗖𝗵𝗮𝗺𝗽𝗮𝗴𝗻𝗲 𝗞𝗶𝗻𝗴 from 1982, and the reinterpretation by 𝗠𝗿. 𝗕𝗶𝗴𝗴𝘀, who began his career in Jamaica as the vocalist for the 𝗗𝗿𝗮𝗴𝗼𝗻𝗮𝗶𝗿𝗲𝘀, 𝗕𝘆𝗿𝗼𝗻 𝗟𝗲𝗲’s band, before going on to score hit after hit in England.
𝗟𝗼𝘃𝗲 𝗖𝗼𝗺𝗲 𝗗𝗼𝘄𝗻
My perfect song for today.
Eu convivo com o tinnitus há algum tempo. Já sentia seus efeitos antes mesmo de saber seu nome.
Sempre evitei fones em casa ou preparar sets, tentando não alimentar essa fera que domina minha audição. Segui convivendo com essa condição até ser surpreendido pelo seu quase desaparecimento ao tomar mirtazapina como antidepressivo.
Mas, com a mudança da medicação, o fantasma voltou. No carnaval, antes do Confronto x Vapor, precisei usar o fone e fiquei quase sem ouvir. Toquei assim mesmo, tentando me guiar pelas referências visuais da CDJ, me virando como podia, tendo que abandonar quase todas as músicas novas que tinha separado e optando pelo caminho mais conhecido.
Fiquei feliz por conseguir estar ali, mas a frustração foi devastadora.
Passada aquela noite, entendi que minha relação com tocar tinha mudado e que eu já não decidiria o momento de parar. Resolvi seguir com a consciência de que, daqui para frente, tudo será um mero adiamento de algo inevitável. Tenho a consciência de que cada nova vez sempre poderá ser a última!
Que a vida seja generosa!
📸 @technogamia
🎥 @jaidafucksthebeat
E pra quem tá perguntando se vai ter reggae…claro que vai! Serão duas pistas: uma com reggae, dub e dancehall e outra com sons mais eletrônicos!
Pode colar que Confronto + @savana.mesmo vão representar os sons jamaicanos como sempre!
Corre porque as cortesias tinham esgotado, mas a gente conseguiu liberar mais algumas.
Amanhã a gente se encontra pra derrubar o Conic!
Se formos falar de uma linha evolutiva da 𝗺𝘂́𝘀𝗶𝗰𝗮 𝗲𝗹𝗲𝘁𝗿𝗼̂𝗻𝗶𝗰𝗮 do fim do século passado, é possível afirmar que o pioneirismo do 𝗞𝗿𝗮𝗳𝘁𝘄𝗲𝗿𝗸 está no centro de tudo, vindo logo depois uma bifurcação na qual se desenvolvem duas correntes que nos levam aos dias de hoje.
De um lado, o som de pista, com 𝗗𝗲𝘁𝗿𝗼𝗶𝘁 𝗧𝗲𝗰𝗵𝗻𝗼, 𝗔𝗰𝗶𝗱 𝗛𝗼𝘂𝘀𝗲 e 𝗥𝗮𝘃𝗲𝘀 e, do outro, um som mais contemplativo, não necessariamente voltado para a dança, representado por artistas como 𝗖𝗼𝗹𝗱𝗰𝘂𝘁, 𝗧𝗵𝗲 𝗕𝗹𝗮𝗰𝗸 𝗗𝗼𝗴, pela criação da 𝗪𝗮𝗿𝗽 𝗥𝗲𝗰𝗼𝗿𝗱𝘀 e, principalmente, pelo surgimento do 𝗧𝗵𝗲 𝗢𝗿𝗯.
Apesar de terem nascido do movimento das 𝗿𝗮𝘃𝗲𝘀, o grupo londrino criado por 𝗔𝗹𝗲𝘅 𝗣𝗮𝘁𝗲𝗿𝘀𝗼𝗻 foi responsável, na década de 1990, por “acalmar” o ritmo frenético da 𝗺𝘂́𝘀𝗶𝗰𝗮 𝗲𝗹𝗲𝘁𝗿𝗼̂𝗻𝗶𝗰𝗮 e apresentar outras possibilidades para esses sons.
Seu aparecimento dá continuidade às ambiências criadas por 𝗕𝗿𝗶𝗮𝗻 𝗘𝗻𝗼 e, sobretudo, passa a considerar a influência do 𝗱𝘂𝗯 na construção de uma linguagem própria. Esse processo foi decisivo e ajudou a pavimentar o caminho para o surgimento de uma infinidade de artistas. Sem essa transformação, talvez não existissem nomes como 𝗔𝗽𝗵𝗲𝘅 𝗧𝘄𝗶𝗻, 𝗕𝗼𝗮𝗿𝗱𝘀 𝗼𝗳 𝗖𝗮𝗻𝗮𝗱𝗮, 𝗗𝘂𝗯 𝗧𝗲𝗰𝗵𝗻𝗼, 𝗗𝗿𝘂𝗺 & 𝗕𝗮𝘀𝘀 e até mesmo o 𝗠𝗮𝘀𝘀𝗶𝘃𝗲 𝗔𝘁𝘁𝗮𝗰𝗸.
O grupo lançou uma extensa discografia, mas dois álbuns se destacam como os mais relevantes e revolucionários: 𝗧𝗵𝗲 𝗢𝗿𝗯’𝘀 𝗔𝗱𝘃𝗲𝗻𝘁𝘂𝗿𝗲𝘀 𝗕𝗲𝘆𝗼𝗻𝗱 𝘁𝗵𝗲 𝗨𝗹𝘁𝗿𝗮𝘄𝗼𝗿𝗹𝗱 (1991) e 𝗨.𝗙.𝗢𝗿𝗯 (1992).
Escolhi colocar aqui “𝗣𝗲𝗿𝗽𝗲𝘁𝘂𝗮𝗹 𝗗𝗮𝘄𝗻”, single de 1991 que, para mim, representa de forma exemplar a força do som criado por eles. Como curiosidade, o vocal da faixa foi extraído do hit 𝗿𝗲𝗴𝗴𝗮𝗲 de 𝗝𝘂𝗻𝗶𝗼𝗿 𝗗𝗲𝗹𝗴𝗮𝗱𝗼, “𝗦𝘁𝗼𝗿𝗺 𝗜𝘀 𝗖𝗼𝗺𝗶𝗻𝗴” (1989).