Saudade Parte I
Eu sinto a sutileza com que a saudade entra, na ponta dos pés, sem que ouça o abrir e fechar das portas. Eu construí essa fortaleza com pedras de fogo, manuseei com as mãos o magma, onde quem não quer ser encontrado reside pra ela penetrar com a facilidade que só habitando dentro mim, sabendo o que apenas eu sei é possível acessar.
“Não é a primeira vez que faz isso” disse-a em pensamento ao perceber outro perfume além do meu no ambiente, olhando-a com a cabeça levemente inclinada, canto de olho sem mover um milímetro sequer para encara-la de frente.
Ela não pede licença pois igual a você, Mãe, é de casa. Assim como não se escolhe família, nome ou qual canto do mundo se nasce também não há livre arbítrio acerca das saudades as quais levaremos vida.
Não se incomodou com meu silêncio, em silêncio caminhou por onde quis. A recebo como visita mesmo morando dentro de mim. Deitou ao meu lado as 22:00 sem pretensão de me deixar as 06:00 ou as 10:00, as 17:00 seria um ótimo horário para partir?. Talvez vá embora se eu permanecer calado, fingindo que não está aqui...
Mas ela não vai, me conhece tão bem, sabe o quão posso ser indiferente com as coisas que amo, que não é assim de primeira, que o amor pra mim tá mais pra confissão tardia de que não consigo evitar do que entrega. A saudade não liga se sumo, se não respondo ou se minto com o semblante mais frio possível de que não sinto nada. Me conhece tão bem quanto você, Mãe.
Seu semblante não me diz suas intenções. Posso ser frio, quente, doce, amargo, duro, maleável... ela permanece absoluta, com uma imposição tão suavemente cruel... Esgoto fácil meu repertório, não há cartas nas mangas de quem está nú, então cedo aceito sua aproximação.
Penso em escrever ela me tira a palavra, penso em dançar me tira o ritmo e pensar em correr a essa altura é o suficiente para perder os pés. Então sou eu, o filho do fogo, tentando lidar com uma inundação no interior do vulcão recém apagado. É inútil tentar enxergar de início, muita fumaça sobe enquanto a temperatura esfria.
Há um determinado momento no camdoblé que tudo que tenho é a certeza de que é muito bom estar vivo naquele momento. O ancestral dançando na minha frente, na matéria de minha Mãe e meus irmãos, é o invisível frente aos meus olhos, é quando o vento se torna palpável. É quando as energias a quem devo tudo celebram a magia negra.
Há um determinado momento que justifica o porque de pertencer a minha casa, aos meus ancestrais é a maior honra que tenho. Em meu horizonte consigo crer que posso conquistar qualquer coisa, pois já alcancei meu auge, o ápice da minha vida me foi dado gratuitamente. Ser filho do vento, do fogo, da água e da terra traduz o sentido de vencer na vida.
O que seria de mim sem Orixá? É uma pergunta que se transforma na reflexão: olha só o que sou com Orixá...
Se mil vezes eu nascer, mil vezes quero renascer. Um milhão de vezes minha cabeça encontrará o chão e que o multiplicar dessa devoção escale ao infinito.
Minhas Mães, meus Pais, meus Irmãos... caramba!
As vezes desço pra terreiro sozinho, só pra almoçar ouvindo o som do ambiente, olho pro céu e agradeço meu Orí por ter atendido ao chamado. Agradeço Oya por ter me concedido um lugar a mesa, agradeço Oxum e Yemanjá por se materializarem na figura de minhas três Mães queridas, a Oxaguiã por ter me dado um pai, a Omolu e Yewa por terem me dado dois espelhos, a Oxossi e Omolu por serem presentes na minha vida.
Agradeço a Xangô pelo orgulho e a determinação do fogo. Por ser o pai que cumprimenta seus filhos como um militar, por tudo que me exige. Agradeço pela razão que quem cultua o fogo não vive simulacros. Me agarro a tudo que o fogo permite ficar de pé após arder.
Agradeço ao meu Pai Rei das Matas por ser meu abrigo, por me permitir entrar em sua aldeia, por me ensinar o que é a vida.
Agradeço ao Camdoblé, agradeço ao roncó pois nunca mais consegui fugir de mim mesmo e me encontrar é a melhor dádiva que possuo.
Eu quero viver aqui até cufar e se possível retornar pra cá novamente. Não há melhor lugar no mundo que na nossa casa, onde Deus fez a morada...
Lua nova que clareia o mundo inteiro, não me deixe vacilar.
O tom insondável das dores que sinto se mantém nas alegrias, tenho aprendido com Xangô e Oxum a senti-las tocar o meu âmago.
Não adianta de muito tentar narrar/explicar a alguém, a linguagem não alcança o pique dos sentimentos... Sempre um passo atrás, quando o poeta crê ter alcançado em sua sangria versada a dimensão daquilo que sente é o momento de apertar os cintos, a vida flui como enchente.
A vida flui como enchente, destrói as estradas, derruba os portões, afasta as palavras para bem longe de seus sentidos, arrasa toda a estrutura. É o dilúvio destruindo a arca antes do primeiro navegar. Poeta não navega, poeta hora nada hora se afoga, aprende a respirar debaixo d'água e é abençoado com o dom de nunca controlar nada por mais intensa que seja sua vã labuta. A distância entre a poesia e o coração do poeta se torna tamaha que todos os versos soam como página de um jornal do ano passado, toda poesia concreta é tardia, é adubo para uma árvore que já não existe mais, se tornou tronco que boia na correnteza. Esse é o fardo.
Paradoxalmente, por ser poesia, possui a estranha magia de permanecer viva. Creio que Deus criou o mundo em sete dias e, enquanto descansava no oitavo, o homem criou a poesia roubando um pouco de sua magia criativa.
A poesia é um deslize, um vacilo divino. Escrevo quando Deus cochila.
Ao acordar acho que Deus não fica enciumado, mas age como um. Ele deve rir, aplaudir e mexer no meu destino com sua boa e velha mania de manter o mundo imprevisível para mim. É a sua melhor invenção, não me deixará decodifica-la nunca. Ele me embaralha e me arrasta para onde nunca imaginei existir, para o inexistente. Pra que eu me refaça, refaça meu mundo e compreenda que ser filho de Deus é isso, é ser um eterno criador.
E eu volto ao princípio, do silêncio me torno verbo e meu espírito paira entre as águas...
Davi S.
Quatro e pouca da manhã, estou pensando na senhora, já é rotina.
Eu amo pensar na senhora, amo nossas lembranças, amo me olhar no abebe de Oxum e ver em mim cada detalhe do que chamo de "eu" e perceber que veio de ti. É uma honra ter sido apresentado a Deus por suas mãos quando nasci, é uma honra ter sido o "seu médico" por tantos anos, é uma honra aprender trocar fraldas com 13 anos cuidado de ti, é uma honra ser fruto de Dona Romana Pinheiro dos Santos.
É uma honra ter seu sangue pulsando em minhas veias, é uma honra que a vida que habita em mim só existir por conta da senhora. É uma honra te amar, é uma honra ser seu "filho neto".
26 anos de vida, 26 anos que me dediquei a Senhora. É uma honra te ter como o amor da minha vida, é uma honra ser seu.
Lá a adiante, por detrás da lua, seremos sempre eu e a senhora, ainda somos eu e a senhora. Eu te amo, tu me amas, é uma honra.
Eu sou seu legado, sou seu fruto, é uma honra.
Sorrir é cansativo.
Toda noite eu sonho contigo, acordar é injusto, uma desilusão.
Me levanto, me cuido, me banho, me visto, me perfumo.
Pego ônibus, metrô, sorrio, converso, discuto, resolvo e retorno pro meu mundo.
Toda noite sonho contigo
Sorrir é cansativo
Acordar parece injusto
Até a vontade de vencer
E conquistar o mundo
Se confunde com desejo de compensar
A falta que você faz
"Eu trouxe esse mundo pra compensar que cê não vem"
Quando decidimos estruturar o Mãos no Tambor como um projeto, que iria além das redes sociais, decidimos que um dos nossos objetivos seria aproximar e incentivar os jovens pertencentes às comunidades de terreiro a aprender mais sobre as histórias e tradições do Candomblé e ouvir depoimentos como este, do Ogan @dxvis7 , nos faz ter certeza de que estamos no caminho certo.
O 1º Workshop gratuito trouxe muitos impactos positivos para nós e para nossa comunidade, por isso, no dia 19 de agosto, vamos abrir as inscrições para a 2ª edição, que acontecerá em setembro. Fiquem ligados!
Imagens: @gabehs@caro_lchagas
Edição: @gabehs
Eu apoio @thiffanyodara na eleição para Ouvidoria da Defensoria Pública. Vejo em sua candidatura esperança na luta por acesso a justiça de diferentes movimentos sociais. Sua trajetória marcada por construção de pontes e diálogo reúne e constrói ações essenciais. Escolher Thiffany Odara é potencializar as margens e encruzilhadas da sociedade através de uma representatividade ativa e eficiente!