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Contas de memória em madeira:
O gesto de miçangar, juntar contas por meio de nós, fios e conexões, aproxima-se de uma lógica de construção de sentido por fragmentos. Cada conta é um ponto isolado que, ao ser conectada a outras, forma uma totalidade provisória. Esse princípio dialoga, de modo especulativo, com a ideia de que a realidade é tecida por relações invisíveis. Tal aproximação encontra ressonância na metáfora da teoria das cordas, que compreende o universo como estruturado por vibrações e conexões fundamentais. Ainda que em outro campo do saber, essa imagem permite pensar que, ao tecer contas, tecemos também memória, material e simbolicamente, construindo nosso próprio tecido de sentido no mundo.
As peças dessa família nascem, portanto, da junção de fragmentos: sementes, madeira, fios, nós e lembranças. Esses fragmentos, quando reunidos, deixam de ser partes isoladas e passam a constituir outra coisa, um tecido, uma forma utilitária, um objeto que circula no cotidiano, como a bolsa criada a partir desse conjunto. Trata-se de um fluxo vivo, onde passado e presente se encontram. Ao imaginar essa bolsa, projetei nela a tentativa de reimaginar o passado da minha avó, criando um objeto que lembra de onde vim e que imortaliza essas memórias em algo que carrego no meu próprio estilo.
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/tccdopedru
Uma oportunidade de trocar, ouvir e se inspirar ✨
Convidamos você para uma roda de conversa com o estilista David Lee — um encontro para falar sobre processos criativos, moda autoral e caminhos possíveis dentro da criação.
Vem somar nessa troca com a gente 💬🖤
O lançamento do livro de artista Fio de Reis, da artesã, artista e pesquisadora de memória Shayná Moura, marca um momento significativo para a produção cultural cearense contemporânea. A obra, contemplada em 1º lugar no 14º Edital Ceará das Artes, surge em um contexto estratégico: enquanto o Brasil volta a ocupar os holofotes internacionais nas áreas do cinema, da moda e das artes visuais, o Cariri reafirma sua potência criativa como território de invenção, memória e experimentação estética.
Fio de Reis se apresenta como um livro de artista que ultrapassa o formato editorial tradicional, articulando linguagens visuais e têxteis para reinterpretar o Reisado São Francisco a partir da perspectiva da moda. A publicação reúne fotografias com qualidade de editorial, ilustrações autorais, processos artesanais como cianotipia e bordado, compondo uma narrativa visual que tenciona tradição e contemporaneidade. O projeto evidencia a manualidade como gesto político e poético, reforçando a conexão da artista com saberes ancestrais e práticas coletivas.
Outro aspecto central da obra é seu compromisso com o território, toda a produção foi realizada em colaboração com artistas, artesãos e profissionais do Cariri, fortalecendo redes locais e impulsionando a cultura da região. O livro, Fio de Reis, se constrói como um dispositivo de circulação de afetos, saberes e imagens que reposicionam o Cariri no mapa das produções culturais brasileiras.
O evento de lançamento acompanhou essa dimensão expandida do projeto. A brincadeira do reisado, a conversa aberta sobre o processo criativo e a troca com o público, a noite celebrou a obra final, e os caminhos que a constituíram. Encerrando a programação, o show de Carla Ribeiro fecha o evento como um vestido de noiva no final de um desfile da Paris Fashion Week.