Despertar de um pesadelo em uma cidade como o Rio é tão ambíguo… Fazer a passagem de um sonho ruim para uma realidade que supostamente aliviaria as dores sentidas no mundo onírico. Mas alívio aqui é possível? O corre, o desespero, a miséria, o abandono, tá tudo tão do avesso, tão diante dos olhos o tempo inteiro. O Rio não consegue esconder um fracasso que não me parece exclusivo da cidade em si, mas do sistema como um todo, e das nossas incursões civilizatórias. Eu nasci aqui, nessa cidade mesmo, e por muito tempo me senti desconectado de tudo o que estava ao meu redor. Venho entendendo que, talvez por proteção, eu mesmo tenha criado essa desconexão. É quase uma estratégia de sobrevivência, habitar um mundo hiper-imaginado e, por consequência, ter muita dificuldade em lidar com a concretude das coisas. Lembro de uma passagem de Em busca do tempo perdido, onde o narrador descreve uma transa em um de seus sonhos e se dá conta, ao despertar, que as suas pernas estão dormentes, como se de fato o corpo tivesse suportado durante a noite o peso do corpo outrem. Essa linha que divide o sonho da realidade está borrada, e esses dois estados da consciência meio que criam memórias um no outro, se imprimem sentimentos, sensações, muitas vezes ideias. E agora venho me dando conta da importância sobretudo dessas ideias. A intenção de lidar melhor com o mundo concreto é super bem vinda, quero mesmo seguir me dedicando a isso. Mas, gente da terra, sonhar um mundo novo é urgente!
Agradeço demais a @malina_fotos , com quem divido a autoria e a prática dos nossos sonhos
A foto foi pensada a partir da carta 9 de espadas do Tarot de Rider-Waite. Dessa carta, ficou pra mim a sensação de acordar de um pesadelo com 9 espadas apontadas para si.
Está de dia e quente. Olho em volta, uma roda de chorinho no meio do bar. Pessoas circulam pra dentro e pra fora do buteco. Vejo muitos rostos parecidos ao teu, o arquétipo do meu principe encantado, o menino mais bonito da escola. Acontece que todos pareciam ser voce, mas se olhasse bem, algo que me diria que não era. O cabelo de um moço era mais comprido, o outro era mais alto, o outro tinha olho de outra cor, outros passavam por mim como se não me conhecessem.
Em um dado momento, um dos possíveis se aproxima e começa a conversar comigo. O papo é agradável e penso que deve ser você. Este me pega pela cintura e me convida pra fora do bar, eu vou.
Enquanto estou saindo, olho novamente pro interior e percebo você sentado no centro do bar, na mesa do chorinho tocando um instrumento, que me olha e sorri.
Eu quero ir até você, mas estou indo com aquele que me cativou. Enquanto ando te acompanho com o olhar, mas meu corpo não oferece resistência alguma, como se quisesse ser levado por aquele que se apresentou.
Vou embora com quem que me leva.
Texto @larafrrrm
Foto @dipferrera
Agradecimentos especiais a @mariaspfer que gentilmente abriu sua casa para essas fotos e @rebecazuos pela assistência na produção
É incrível como os movimentos de união e separação regem quase tudo ao nosso redor. Mas há certas imagens que superam essa dicotomia. Outro dia, enquanto caminhava numa praça, vi duas árvores imensas, com galhos que se encontravam no espaço. Tinham troncos separados, mas os galhos se entrelaçavam de tal maneira que era impossível distingui-los, pareciam uma criatura só. Eram, na verdade, quase isso. Mais tarde soube que se tratava de uma ficus elástica, árvore que produz raízes aéreas que brotam suspensas de seus galhos e descem perpendiculares até encontrar o solo. As raízes então penetram a terra e desenvolvem toda uma estrutura radicular subterrânea, e com o passar do tempo, formam um novo tronco. Visto assim, são duas árvores distintas, mas unidas por galhos que se fundem. Também soube que há casos de árvores separadas que, no lento e paciente transcurso dos anos, movidas pela sorte do próprio crescimento, inclinam-se uma em direção a outra até seus corpos se tocarem. Com o tempo, a fronteira entre elas se desfaz. A pele (a casca) cede, e suas entranhas vivas (o câmbio) entrelaçam-se num pacto silencioso. O que eram dois troncos torna-se um arco, um portal de madeira viva. O que eram galhos tornam-se ramos de artérias, laço. Não é uma fusão que anula os indivíduos, mas uma simbiose que os transforma num casal arbóreo, uma entidade dupla e singular que conta uma história de paciência, proximidade e apoio mútuo. É um fenômeno chamado inosculação, que significa “unir pela boca” ou “beijar”. A inosculação não anula as individualidades das árvores (elas mantêm suas copas e raízes próprias), mas cria uma zona de continuidade, um compartilhamento de seiva (vida). A árvore vive um sonho erótico: encontrar no outro não um espelho, mas uma passagem. É possível, neste mundo, inclinar-se de tal modo sobre o outro que surja não um terceiro, mas um entre—um arco de madeira viva, uma ponte suspensa, um convite gravado no tronco do mundo: o encontro não está à frente, mas ao lado. Crescer individualmente, unir-se em beijo arbóreo e a partir daí crescer junto - inclinação e toque sobre a casca áspera para que os câmbios vivos possam, por fim, entrelaçar-se.
Nem tudo é contínuo. Há fraturas, mudanças de rota. Lá dizia, o karma não é um fardo. Mas é preciso despedir-se para continuar a caminhada. Sim, a gente se apega. Carregamos pra cima e pra baixo toda sorte de tralhas que atraímos num imã, como se existir fosse um ato cumulativo e a identidade uma teia pegajosa. Acho importante a gente se reconhecer sim, firmar pra nós mesmos uma imagem de onde nossos desejos nos levam - ninguém tá nesse mundo a passeio. Caso contrário, fica tudo meio solto, invertebrado, esparramado no chão. Mas sente bem o peso das tuas bolsas. Vê como age teu corpo e nota bem teus orifícios de passagem. Se necessário, abra bem a boca diante do espelho e observa o túnel escuro. Vê, é ali que corpo começa a alquimia do que fica e do que vai. Experimenta dizer, ainda diante do espelho, bem perto do seu reflexo, uma sorte de palavras. Sente o vento que finamente modula sua voz projetando-se pra fora. A palavra agora é um fruto que você colhe e lança para o espaço, que você desprende e retorna. Confia na memória, mas nota, ela não é inteiramente tua, não se prende o seu encadeamento. Deixar ir o que precisa ir não é um apagamento, é o contrário, é tomar nota, escrever, registrar… É como um retrato nosso: lá onde não estamos mais. A memória é uma toda entidade, é um corpo-comunhão de múltiplas existências. Ela caminha por si só.
Uma das coisas que eu mais amo em ser artista é poder me transformar e transformar a minha arte a partir das minhas experiências, sobretudo quando atravessada por outras pessoas e histórias.
Na minha passagem por Berlim esse ano encontrei dois artistas incríveis que me desafiaram a um collab entre performance e fotografia a partir das minhas descobertas e experiência do meu espetáculo solo - Dona de Si naquele território - Berlim.
E foi a partir desse encontro potente que nasceu - Single Mother, uma performance itinerante que ao deslocar os elementos chifres e tecido do teatro para a rua levanta outras questões revelando o quão o ambiente e pessoas influenciam o resultado artístico e sobretudo os artistas envolvidos.
O tecido ganhou outras formas através das provocações dos fotógrafos assim como do público passante que ora paravam para observar, ora passava batido.
Os chifres representados como como metáfora dos filhos / escolhas da vida, encontrou outros lugares potencializando a ideia sobretudo para mulheres mães de que nem tudo dá para segurar, que alguns filhos vão ficar no caminho, que alguns sonhos cairão por terra… faz parte da vida deixar , assim também como sustentar.
O resultado ficou incrível e nos deu um trabalho danado fazer a seleção que partilharemos uma parte com vocês para anunciar que em breve vem um livro de dança / fotografia e poesia por aí. 💃🏽❤️
@dipferrera e @oiia.art , Obrigada pelo convite, confiança e entrega.
#donadesi
#danca
#fotografia
#poesia
Sonhei um relógio que marcava todos os tempos do mundo. Ele imitava o sistema solar, pra que víssemos o tempo de fora do relógio, como quem diz o tempo todo que tudo é. Mas ele dizia isso solitário, numa paisagem de almas alheias, de pessoas que cruzam o espaço em passos largos enquanto se perguntam “que horas são?”, como se a resposta pudesse dar conta do único tempo possível, o tempo do seu ângulo. Agiam como se possuíssem o tempo, como se o levassem consigo, enrolado em seu pulso ou no bolso do casaco. Acordei com o choro de um cachorro. Ele precisava dar uma volta na rua, mijar em lugares estratégicos (e que mistério a forma como os elegem). Era um cachorro grande de uma raça que havia sido treinada para a caça por ordens de um rei qualquer de uma dinastia distante. O treinamento consistia em usar o animal não para atacar as presas, mas para, através de um faro avantajado, apontar sua localização. O cachorro simplesmente congelava no tempo, parava o corpo todo com o rabo esticado, uma das patas encolhidas e a cabeça hasteada na direção da presa. Essa raça foi condicionada a agir assim tantas vezes que, mesmo não sendo mais assim treinadas, seguem repetindo o movimento. Isso me faz pensar muito em memória, e se seria possível conversar com ela. Quer dizer, como seria trabalhar a consciência da memória? Será que conheço meus próprios condicionamentos? Eu penso que isso seria um pouco como checar as horas em um relógio cósmico. Vai certamente doer no indivíduo. Mas relaxa mermão, isso não te torna menos especial. Também não torna menos inédito o ângulo que o sol toca sua face ou a corrente de exalações do ar que te rodeia. Também certamente não vai tornar mais fácil sua vida. Ele só quer dizer, com toda humildade, que muitos sons fazem um soneto e que, na história das partículas, nem a partícula é de todo particular. Dá um susto, eu sei. Se pá depois somos outros.
Toda vez que seu corpo faz uma incursão no espaço, você cria uma memória. O espaço é alterado, é riscado pelos seus movimentos. A massa de ar que o corpo deslocou jamais voltará ao estado do qual partiu, está tudo ali respondendo ao peso, à respiração. É como se fosse um pedaço de papel onde fica uma mancha, um rastro. Há nisso ainda outros aspectos importantes que estão ligados à energia que você põe nos seus movimentos, às intenções. É como um ritual onde criamos traços e memórias, deixamos marcas no espaço que perpetuam. Esse risco lá permanece em sua duração, ainda que seu corpo já não mais esteja. Acredito que a dança e a fotografia, no sentido de criação de memória, têm muito em comum: as duas acreditam na marca e se dedicam a riscar e alterar o espaço. É uma grande fé na presença, uma ode ao instante. Um aqui-agora tão intenso que recria por si só a sua própria duração, em movimentos espiralados, ressoando em tantos outros aqui-agoras. Acredito que, em comum, temos a busca por traços que partem de um universo de lucidez onírica, que rejeita essa separação, que transforma salas em verdadeiros pântanos encantados e que atravessa todos os corpos em cena, numa vibração única. Um rompante de lucidez em que o suposto instrumento do risco (o pincel, o corpo) é também pelo espaço tatuado, é ao mesmo tempo folha e carvão. Nada desvanece nas incursões intencionadas. Sonhar é romper a crisálida do indivíduo, é, como na dança e no retrato, fazer corpo fora de ti. Aqui não há fronteiras: toda borda é litoral, toda orla é aquarela.
Ninguém sonha sozinho...
O sonho da parede - de toda e qualquer parede - é vestir-se de vida.
Agradeço muito aos migs @luiznadal e @luizwachelke pelos momentos incríveis vividos nesse lugar @casa.das.heras 💚🌿