Limpando a galeria, encontrei alguns trabalhos dos últimos tempos e achei que mereciam ficar por aqui também
fotografia, produção, comunicação e até um pouco de sala de aula, tá?
aos vinte e poucos, muitas coisas são inconstantes ainda
mas tá acontecendo
e ficando
As folhas não ficaram expostas ao sol o suficiente, mas isso acabou ficando
As imagens vêm de fotografias antigas da minha família. Rostos colados ao tempo, quase apagados. São meus avós
As folhas usadas são do jardim da minha avó, dona Socorro. Ela mesma plantou. Esse gesto foi a última coisa que fez antes de partir
Outro motivo pelo qual escolhi a fitotipia é que, com o passar do tempo, as imagens vão desaparecendo a medida em que vão sendo expostas a luz
Elas vão sumindo aos poucos, como as lembranças. Como a memória do meu avô, que tinha Alzheimer. Como a minha também falha
Existe um pouco deles aqui. Existe um pouco de mim
Na segunda foto, quase ilegível, há a impressão do verso de uma 3x4 antiga, escrito:
“Socorro, para quando o coração esquecer, os olhos lembrar. Maui”
Talvez as fotos não precisem sempre preservar memória. Aceitar o esquecimento já é suficiente
Abri o Google Fotos pra procurar uma imagem que dialogasse com Cotton propõe em Vida Íntima, capítulo do livro A fotografia como prática contemporânea, pra concluir uma atividade da faculdade. E encontrei.
Quando olhei a data, levei um susto: dezembro de 2023. Eu não lembrava que já fazia tanto tempo.
Fui deslizando pelas imagens até parar nessa. Algo nela me atravessou. Me feriu, talvez. Ou me tocou de alguma forma. Talvez tenha sido o tempo, já denunciado ali na data do clique. Ou a distância. A ausência. A velhice. Ou algum sentimento que já existia naquele fim de tarde de uma quinta qualquer.
Na época, era só uma foto amadora, tirada com o celular, por um motivo que nem lembro mais — se é que havia algum. Mas hoje, vejo nela coisas que antes me escapavam. E é justamente isso que Cotton sugere quando diz: “Todos podemos encontrar, em nossas fotografias privadas, os sinais das correntes subjacentes em nossos relacionamentos familiares específicos” (2010, p.138).
Talvez, de fato, a sensação de tempo — e de que ele passava e precisava ser guardado — já fosse o grande motivador ali. Como Cotton aponta, é essa “sensação de urgência com que se fotografa o que é emocionalmente significativo” que nos move. Uma tentativa de conservar a nossa própria versão da história (2010, p.139).
Agora, em julho de 2025, entendo. Aquela quinta-feira de dezembro carregava algo que precisava mesmo ser fotografado. Algo que merecia — e ainda merece — ser lembrado.
De algum jeito, eu sabia.