XI Mostra Intérpretes Criadore(a)s Solos 2025
Por
@postdedanca
O SOM DA MORTE E SEU OPOSTO - Post 129 Sobre 'Soando bem aos ouvidos', de Erik Breno
(Coletivo Tanz - Paraíba)
Núcleo Pedro Costa, 25/10/2025
Erik está sentado de costas para nós, próximo a um grande saco branco. Com a cabeça baixa e a respiração pesada, ele parece cansado. Ele se deixa cair para o lado e se move aos trancos pelo chão, soprando um apito estranho, em forma de cabeça de bicho. O som da morte.
Agora ele está de pé, músculos tensionados, movimento fragmentado. Ele cai algumas vezes, reergue-se. Cospe o apito. Numa luta estranha, ele busca soltar um braço do outro e manipula o próprio corpo como se esse corpo fosse um território ocupado por forças opostas. Sinto uma espécie de tontura. Ele olha para uma carroça largada num canto. Nós também. Ele veste sapatos e puxa a carroça em movimentos circulares cada vez mais rápidos. Me sinto um pouco aflita. "Hoje eu me dirigi a um novo ponto de trabalho..." Erik começa a falar de si, mas logo expande o imaginário, evocando outras lutas, tempos e espaços. Sua fala cria equivalências e aproxima experiências: João Pessoa, Allepo, Ucrânia, Gaza... Migrações, trabalho duro, ataques, ocupações e errâncias que se repetem na história de luta da classe trabalhadora. Tudo que ele faz, daqui para frente e em retrocesso, se tinge dessa história coletiva. Não é mais um solo.
Ele transforma a carroça em plano inclinado: monta, desmonta, transporta, remonta. A carroça é trabalho, barricada, casa, muro... Ele sobe, desce, atravessa, escala, sai rolando. Como um migrante, percorre distâncias e carrega o grande saco na cabeça. No percurso, Erik toma emprestado as palavras de Chico
Science para evocar nomes como Zumbi, Zapata, Panteras Negras, Marielle Franco, Mariguella e Lampião.
Histórias recorrentes de luta e resistência.
Digito esse texto ainda muito abalada pela chacina promovida pelas forças públicas nos Complexos da Penha e do Alemão no Rio de Janeiro na última semana.
O som da morte infelizmente não para de tocar, mas acredito que a dança é, e sempre foi, uma arma importante contra o fascismo.
Obrigada, Erik Breno! Com o coração pesado, seguimos..