Andaraí, Bahia — 2096 — O foco e o desfoque representam essa dualidade, que é o grande mistério. Ponto e contraponto, luz e sombra destrincham e enriquecem o que vemos. O foco seletivo é a busca da síntese da síntese.
O sertão, palavra que deriva de “desertão”, transformou-se num estado de espírito nacional, um lugar onde os elementos e a natureza conspiram contra. Foi ali que grande parte do ouro e diamantes foi extraída e surrupiada pelos colonizadores portugueses, possibilitando a revolução industrial na Europa, deixando para trás cidades históricas lindas, de estilo colonial barroco, esquecidas no tempo, preservadas como fotografias antigas guardadas num baú.
De Bom Jesus a Milagres, o sertão da Bahia — 2005 - 2012 — O sertão brasileiro, de Minas ao Ceará, tem produzido algumas das obras de arte mais extraordinárias do país – com Euclides da Cunha, Guimarães Rosa, Castro Alves, Jorge Amado, Marcel Gautherot, Pierre Verger, Marc Ferrez, Gilberto Gil, Luiz Gonzaga – sem falar nos grandes poetas de cordel.
O sertão pode ser considerado, pelo menos geograficamente, o coração do país; talvez daí sua importância para nossa cultura.
No coração da Bahia começa uma nova fase de minha pesquisa com o foco seletivo, que havia começado em 1986 na Índia. Na época, meu foco seletivo era feito com a luz do flash.
O foco e o desfoque representam essa dualidade, que é o grande mistério. Ponto e contraponto, luz e sombra destrincham e enriquecem o que vemos. O foco seletivo é a busca da síntese da síntese.
O sertão, palavra que deriva de “desertão”, transformou-se num estado de espírito nacional, um lugar onde os elementos e a natureza conspiram contra. Foi ali que grande parte do ouro e diamantes foi extraída e surrupiada pelos colonizadores portugueses, possibilitando a revolução industrial na Europa, deixando para trás cidades históricas lindas, de estilo colonial barroco, esquecidas no tempo, preservadas como fotografias antigas guardadas num baú.
Bahia — (cont) … (qdo comprei uma camera 4x5 em 2000) Comecei a fotografar o Rio em 2001. A paisagem exuberante da cidade serve como metáfora para as possibilidades de nossa cultura. O Rio é uma belíssima mistura de praia com montanha, de favelas inseridas cirurgicamente em bairros de classe alta. É uma cidade de contrastes extremos, convivendo em constante desarmonia harmoniosa – imitando o que acontece dentro de qualquer artista...
Depois fotografei São Paulo, o lugar onde moro, onde estudei, onde estão todos os meus amigos e família e onde, em 1973, descobri a fotografia. O nome do livro, São Paulo – minha estranha cidade linda, denuncia a busca pelas contradições extremas de uma metrópole sul-americana.
Depois de Rio e São Paulo com a 4x5, ainda ficou faltando muita coisa, pelo menos para que eu entendesse em imagens o que é meu país. As duas metrópoles representam melhor grandes cidades do mundo do que propriamente nosso país de 200 milhões, espalhados por quase um continente.
Fui atrás do lugar mais brasileiro do Brasil – como se isso fosse possível. Viajei até onde o país foi descoberto e, de lá, fui parar no sertão baiano.
Bahia — De Bom Jesus a Milagres — O filósofo Sir Francis Bacon diz que a função do artista é aprofundar o mistério. O real não é real. Em pleno século 17, era sobre fotografia que ele escrevia. Já que é uma mentira que conta a verdade, a fotografia é, ao mesmo tempo, um instrumento do conhecimento e uma viagem ao desconhecimento, ao mistério – mas que deixa pistas, provoca reflexão, excita a imaginação.
O fotógrafo é o alquimista que transforma oxigênio e átomos de luz em imagens. Marcel Proust diz que cada leitor descobre quem é ao ler um livro. O papel do escritor, afirma, é servir de “instrumento ótico” ao leitor, que, sem o livro, jamais descobriria, por si só, quem é. O instrumento ótico de que Proust fala, na verdade, é a fotografia. Ela serve de espelho e janela – como bem explica Eder Chiodetto em seu texto no meu livro sobre a Bahia –, onde nos vemos e de onde espiamos e aprendemos sobre os outros, o mundo e nós mesmos.
Bahia — Quando o Papa João Paulo II veio ao Brasil, em 1980, uma menina de 12 anos, moradora na região, saiu de casa dizendo: “Mãinha, estou indo abraçar o Papa”. Ela estava com um vestido amarelo-vaticano, segundo ela, e estava determinada. “Mas, minha filha”, disse-lhe a mãe, “que loucura é essa? Eles não vão deixar, nunca, você chegar perto do Papa”. “Eu vou!”, disse a menina, e saiu.
O Papa estava no alto da Igreja Nosso Senhor do Bonfim e veio descendo. Ela o esperava no meio da multidão. Quando ele estava chegando, ela se desgarrou e correu em sua direção. Foi imediatamente agarrada. Vendo a cena, o Papa disse: “Não!Deixem. Deixem ela passar”. A menina o abraçou com gosto. A foto da cena saiu na capa das maiores revistas de notícias do mundo.
Quando o Papa faleceu, em 2005, a menina, então com 37 anos, foi encontrada e eu fui contratado para ir ao sertão da Bahia, onde ela morava, para fotografá-la. Eu já pesquisava o sertão para fazer um livro e a última peça se encaixou. Ela estava perto da cidade de Milagres. Eu, fazia muito tempo, queria fotografar Bom Jesus da Lapa. Pronto! De Bom Jesus a Milagres, o sertão da Bahia.
Bahia — Cheguei a Bom Jesus, à beira do São Francisco, uma cidade que vive da cultura religiosa, destino de romeiros que viajam em paus de arara (na carroceria de caminhões), vindos de todas as cidadezinhas da região e também do resto do Brasil. A igreja principal fica dentro de uma caverna (lapa) daí seu nome.
Aí começa minha aventura no sertão da Bahia, em direção a Milagres. Foram sete anos, cinco viagens, duas mil chapas de filmes 4x5, quatrocentos Polaroids e vinte mil quilômetros percorridos.