Sabiá-laranjeira.
O som que atravessa a rua já não é o do seu canto.
Escavadeira.
Trator.
Caminhão.
O ritmo agora é outro.
Entre poeira e azulejos quebrados, ainda escuto algo.
Quase soterrado.
Como se viesse debaixo dos escombros.
Uma lembrança de quando a rua era menos vertical.
Sabiá-laranjeira.
Óleo sobre escombros de azulejo.
Aqui existiu uma árvore.
Uma Sibipiruna.
Essa morte eu presenciei.
Moradores disseram que ela estava saudável.
Existem muitas árvores na cidade que desaparecem.
Às vezes caem.
Às vezes são mal plantadas e por isso são cortadas.
A justificativa pouco importa.
O que importa é que ali existia uma árvore.
Essa foi a maior gravura de tronco que já fiz.
O tronco ainda estava com serragem, restos do corte.
Ainda minava água.
Essa umidade criou um efeito mais aguado na gravura.
Uma textura que registra o estado da árvore naquele momento.
Um memorial gráfico dessa Sibipiruna.
23,5564º S — 46,6806º W
Aqui existiu uma árvore.
Um ligustro (Ligustrum)
Foi cortada.
Mas ainda deixa marca.
Essa gravura tenta segurar o que já não está.
As coordenadas apontam o lugar onde essa vida aconteceu.
Menos uma sombra.
Mais um prédio.
A conta segue aberta.
E o sol continua o mesmo.
23,5612º S — 46,6880º W
Pássaro e futuro lançamento.
Um trabalho sobre a memória que se apaga.
Os pássaros ainda estão por aqui, mas cada vez em menor número.
O canto que antes marcava a paisagem agora divide espaço com dragas, caminhões e marteletes.
A cidade cresce.
O som muda.
E, aos poucos, certas presenças deixam de fazer parte do cotidiano.
Que paisagem sonora estamos construindo?
Transformar um galho em caneta é trazer a presença da árvore para a ponta do traço.
O desenho não parte de um controle, ele acompanha o gesto. A ponta conduz o ritmo e o traço responde, mais próximo de um movimento do que de uma intenção.
Quando a ferramenta nasce da própria matéria, cada linha carrega uma variação. Nada se repete do mesmo jeito.
Experimentos gráficos #01
Pressão, matéria e textura
Há duas semanas achei em um antiquário uma prensa tipográfica, provavelmente entre 1880 e 1930. Foi uma luta trazer esse gigante até o ateliê, mas conseguimos.
Esse foi meu primeiro experimento, e cada etapa foi mostrando um oceano de possibilidades. Estou muito empolgado.
Os escombros ficaram.
A pitangueira não.
Ali viviam dois sabiás. Sempre no mesmo ponto, repetindo o mesmo canto.
Agora não têm mais onde pousar.
Dizem que aprenderam a cantar de noite. Quando a cidade abaixa o volume.
Cantam para manter algum vínculo com o que já não está.
Se o lugar some, o canto muda junto?
Aqui existia uma árvore.
Um ligustro (Ligustrum lucidum).
Crescia no limite da calçada, entre o muro e o asfalto.
Era casa, era sombra, era beleza.
Por um tempo, fez sombra.
Segurou o calor.
Marcou o ritmo da rua.
Hoje não está mais ali.
Ficou o espaço.
E a memória de quem passava por baixo sem perceber.
O que muda quando uma árvore some
e a rua segue igual?
23,57280º S
46,69058º W
Depois do último reels, muitas pessoas me perguntaram como eu criei tinta com terra. Segue aqui o passo a passo:
1️⃣ primeiro, escolha uma terra bem argilosa, de preferência mais profunda. Geralmente ela não carrega tantos materiais orgânicos da superfície.
2️⃣ depois, deixe a terra secar por cerca de 3 dias, até ficar bem seca e quebradiça.
3️⃣ peneire a terra para obter apenas a parte mais fina.
4️⃣ coloque a terra em uma vasilha e adicione um aglutinante. No meu caso usei óleo de linhaça, pois trabalhei como tinta a óleo. Mas você pode usar cola branca, que se aproxima mais de uma tinta acrílica.
5️⃣ misture bem até ficar homogêneo.
Pronto, agora é só usar 😊