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No rastro das celebrações do ano passado, quando comemoramos os 50 anos do Paêbiru, seguimos no caminho do sol.
Em 2026, o encontro é com os 50 anos de Flaviola e o Bando do Sol, um álbum que é referência da psicodelia nordestina e que também carrega a participação de Lula Côrtes.
O Festival Lula Côrtes te convida pra gente compartilhar esse espaço-tempo junto e misturado. Nessa edição vamos ter atrações de fora de Pernambuco e em breve sai o primeiro lote!
Fé no sol, na noite, no mistério e na música.
🗓️ 29 de maio
📍 Brilho Cultural
Design: @laura.morgad
Ilustração: @aaavalenca
Mesmo diante do notório ceticismo que me aflige, "Orphan's Lament", de Robbie Basho, é uma enorme experiência mística para mim. Em meio à pandemia, um amigo me mandou o link do YouTube (não está no Spotify), com uma mensagem um pouco misteriosa. Passei dias escutando em repeteco. O refrão se transfigurou em mantra, ou num choro extraterreno, sempre no pé do ouvido. Num dado momento, decidi seguir a corrente, e a enviei a uma amiga, que retrucou: "né possível! Eu que mandei para esse fulaninho". A corrente era um circuito fechado.
Estou mexendo nessa tradução há um tempinho, até que cheguei num lugar em que me sinto minimamente confortável. A métrica já era meio torta; torta ficou. Também mantive, tal qual outras que postei aqui, o jogo de replicar os fonemas vocálicos das rimas ("will you wait for me" -> "te esperei aqui"), ao mesmo tempo em que tento sustentar a narrativa da canção. O objetivo é replicar o máximo das imagens descritas e preservar a sonoridade. É mais por isso que chamo de "tradução" do que de "versão".
Uma coisa não dá para ser bem replicada é cantar e tocar. Por sinal, desci não sei quantos tons para chegar lá (ato metalinguisticamente sublinhado no último verso). A original tem um arranhado sofrido na voz, se trata de um instrumento histriônico no arranjo. O arranjo, por sinal, é folk profundo, é música clássica, e bebe das muitas influências orientalistas de Basho.
Por último, o título deveria ser "Lamento de Órfão", ou talvez "Lamento do Órfão", mas não gosto dessa preposição aí. "Lamento Órfão" parece encaixar melhor.
Acho que Txai, meu gato, gostou. Eu ainda estou decidindo.
"A voz do dono e o dono da voz", que está em Almanaque, é uma das de Chico Buarque que fica um pouco enterrada no seu cancioneiro. Contudo, é uma das minhas preferidas.
Para além da metáfora em torno da misoginia, do comentário satírico sobre a indústria musical na era das grandes gravadoras e da habilidade narrativa típica de Chico, é um refestelo diante da própria língua portuguesa, sua escrita e sua sonoridade.
Sempre fiquei embasbacado com o desdobramento do "ós" de "voz" nas mais diversas palavras (nós, prós, avós). Sem contar na bola curva quando puxa "nozes" e "vozes" numa estrofe. Ele é mestre em fazer um recurso fonético um tanto escasso parecer abundante. Em "Até o fim", realiza algo parecido (festim, querubim, ruim), embora sem o mesmo caráter metalinguístico.
Foi desta impossibilidade tradutória, de especificidade cultural e sonora, que tentei essa versão. Apelei para o que em inglês se chama "slant rhymes", ou quase rimas (como parear was -> |wɒz| com claws -> |klɔːz|), mas fui até o fim. Acho que não dá pra chegar muito mais perto que isso.
Existe uma versão em forró de uma música de Kelly Clarkson que sempre me chamou atenção (quando comecei a prestar atenção nisso).
Não é novidade adaptar uma canção em outra língua baseando-se mais na sonoridade do que no conteúdo, mas a banda Forró Anjo Azul deixa o vínculo fonético com a original bem sublinhado quando substitui "Meu Anjo Azul" por "Because of you" no refrão. Não sei se em vocês, mas em mim, o "uw" (do fonema tônico da palavra "azul" -> azˈuw) no final causa uma sensação satisfatória, pois remete ao som equivalente do verso em inglês (/ju:/). A preservação do fonema cria uma das muitas pontes entre as versões, mesmo que a amargura da narrativa da original contraste com a melosidade da adaptação.
"Negro Amor", de Caetano Veloso adaptando "Baby Blue" (Bob Dylan), não chega a essa totalidade, mas perceba que o "ôr" da rima já soa bem melhor do que se ele fosse numa terminação mais distante ("Negro Amar", e.g.). Ou seja (e isso é meio óbvio), canção não é texto, exclusivamente. É também melodia, métrica e rima, e talvez dez outras transcendências mais.
Por conta disso, um passatempo que tenho exercido é criar umas versões que preservem ao máximo os fonemas vocálicos de todas as rimas (claro que dou uma rebolada numas, não tem jeito). O pulo do gato é que tento igualmente conservar o sentido das letras, mesmo que tenha que reposicioná-lo nas estrofes, ou realizar outras manobras. Se não o sentido, ao menos a atmosfera almeja ser mantida.
Nesta versão da música de Daniel Johnston, "True love will find you in the END" vira "Pra cada um existe alguÉM". Todos os outros versos seguem a mesma lógica ("recognIZE YOU" -> "RAIO" foi uma forçadinha que gostei de encontrar).
Tô precisando de outros hobbies.
Lá pelos idos de muito tempo atrás, fiz um mestrado em Teoria da Literatura, na linha de Literatura Comparada, com foco em tradução.
A única coisa que me restou da empreitada, à exceção do título (tenho até que passar no PPGL pra pegar o diploma), foi usar o tempo livre pra fazer jogos com a conversão dos idiomas, me impondo certas regras.
Essa que tá aí é Dó, uma música de @bernavalenca composta apenas de monossílabas. Traduzi pro inglês me usando do que os anglófonos consideram monossílabas (as regras são diferentinhas daqui), e tentando manter o conteúdo (embora a minha tenha saído mais dramática, acho?).
Procura depois a original no Spotify, tem um arranjo de cair o queixo de lindo.
Depois boto outra aqui, do inglês pro português (talvez). Em geral, minha mania é manter a tônica das rimas, pra tentar preservar a sonoridade. Não foi o caso aqui.
No que se refere ao gogó e ao dedilhado, não tenho tanto controle quanto sobre as línguas.
Semana passada, concluí a última etapa da minha HQ, "Os gestos que não deram certo". São quase duzentas páginas, pensadas e repensadas, escritas e reescritas, rabiscadas e consolidadas em desenho ao longo de uma década. Foi labor de formiga, encaixado em valas estreitas do tempo. Exercício intelectual, emocional, manual. Enervante e terapêutico.
Trata-se de uma narrativa ficcional, que pega emprestado traços da atuação política do meu avô, Miguel Arraes, e a iconografia que o circunda. Estes aspectos são destilados no personagem Joaquim Vidal, (similarmente) governador de Pernambuco deposto em 1964 pelo golpe militar. Marcos de sua trajetória servem de pano de fundo para uma trama familiar, campo de batalha onde o cinismo e a espiritualidade se enfrentam. A história atravessa a segunda metade do século 20 e testa a água do 21 com a pontinha do dedo do pé.
O trabalho foi realizado de maneira artesanal, com impressão em Risografia no @labpraticasgraficas e encadernação pela @editoraufpe . Tive ajuda de @laura.morgad para diagramar, montar e imprimir (numa PIXMA iX6810) a capa/cinta, que abraça os seis volumes que compõem o livro. Apenas 50 cópias físicas foram produzidas, e estão disponíveis para venda a R$120.
Me manda uma mensagem na DM se tiver interesse. A gente aproveita e combina a entrega também. Para quem só quiser nas vistas - e não nas mãos - acessa o link na bio do perfil, que lá dá pra ler a HQ completa, num sitezinho que fiz.
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Este projeto foi contemplado nos Editais da Lei Paulo Gustavo Pernambuco e tem apoio financeiro do Governo do Estado de Pernambuco, através da Secretaria de Cultura do Estado via Lei Paulo Gustavo, direcionada pelo Ministério da Cultura Governo Federal.